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13 de jul. de 2022

EDUARDO GUDIN, MÁRCIA & PAULO CÉSAR PINHEIRO – TUDO O QUE MAIS NOS UNIU (1996)

Registro de apresentação ao vivo reunindo dois expoentes do samba, um carioca (Pinheiro) e um paulistano (Gudin) mais a cantora Márcia.

Pinheiro, um dos mais profícuos e inspirados letristas, tem trabalhos com Pixinguinha, João Nogueira, Martinho da Vila, Moacyr Luz, Elton Medeiros, Tom Jobim, Carlos Lyra, João Donato, Ivan Lins, Edu Lobo, Francis Hime, Dori Caymmi, Joyce, Toquinho, Lenine, Sivuca, Raphael Rabello, Baden Powell e Egberto Gismonti, além de uma consagrada parceria, que rendeu mais de 80 composições, com Gudin.

Este por sua vez tem colaborações com lendários compositores de samba como Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini, Hermínio Bello de Carvalho, Elton Medeiros e Aldir Blanc, além de ter produzido o laureado disco BETH CARVALHO CANTA O SAMBA DE SÃO PAULO (1994). Com amplo domínio sobre o violão e sólida formação musical, transitou do samba de raiz à música atonal, colaborando com Arrigo Barnabé nos álbuns CIDADE OCULTA e TUBARÕES VOADORES.

Completa o time a também paulistana Márcia, intérprete titular de duas obras primas atemporais da MPB: RONDA de Paulo Vanzolini e EU E A BRISA de Johnny Alf. Ao que consta, foi ela que criou a ponte inicial entre os dois compositores, ao entregar ao carioca uma fita cassete de uma composição do paulista para que fosse inserida a letra. A partir de então, nasceu uma sólida relação de parceria à distância que se sustentou ao longo de décadas através de regulares contatos telefônicos.

Os três artistas são também conhecidos pelos seus cônjuges notáveis. Pinheiro foi casado por 8 anos com Clara Nunes até a morte dessa, assinando (em parceria com Mauro Duarte) sua mais famosa composição, CANTO DAS TRÊS RAÇAS. Gudin, por seu turno, desposou Vânia Bastos, cantora ligada à vanguarda paulista, em conjunto com a qual gerou o excelente álbum GUDIN & VÂNIA (1989). Quanto à distinta e serena Márcia, teve como improvável companheiro por mais de 30 anos, o popular e desbocado locutor esportivo Sylvio Luís, criador dos bordões “olho no lance” e “pelas barbas do profeta”.

Esses diferenciados parceiros matrimoniais (uma sambista, uma cantora de vanguarda e um narrador de futebol) denotam as peculiaridades dos artistas, cuja fusão revelou-se perfeita. Gudin, com sua sólida formação musical e sua paixão pelo samba esmerado encontrou nas letras de Pinheiro um complemento ideal. Por outro lado, a voz aveludada de Márcia serviu como contraponto à rouquidão escrachada de Pinheiro que, por sua vez, confronta a sobriedade de Gudin.

A performance no SESC Pompeia (SP) registrada em CD pela gravadora Velas teve como objetivo homenagear um espetáculo histórico de duas décadas antes, O IMPORTANTE É QUE NOSSA EMOÇÃO SOBREVIVA, realizado pelos mesmos três no palco do Teatro Oficina (SP), em condições históricas opostas. À ocasião, o show teve a conotação de resistência cultural, a começar pelo título, um brado contra a opressão do regime autoritário vigente.

 Apesar de toda essa simbologia, passou incólume pela censura. Pinheiro que era freguês dos censores, enfrentou tantos problemas que criou um modus operandi para lidar com eles. Segundo relata, alguns artistas de massa, pouco visados, tinham suas músicas aprovadas sem grandes dificuldades. Para driblar a censura, o compositor carioca embaralhava suas composições na mesma pasta para confundir a fiscalização. A coisa deve ter funcionado pois foram surpreendentemente liberadas canções como MORDAÇA (“tudo que se assumiu, desandou, tudo que se construiu, desabou, o que faz invencível a ação negativa”) e PESADELO (“você corta um verso eu escrevo outro, você me prende vivo, eu escapo morto”), parceria com Maurício Tapajós.

Esta última, famosa na interpretação do MPB-4, constou na 2ª parte do show, gravada no Teatro Ginástico (RJ) em fevereiro de 1976 com a participação de Guinga ao violão.

Os dois espetáculos foram lançados em diferentes LPs (1975 e 1976), tendo sido reunidos num único CD na série Dois em Um pela EMI, mas o disco tornou-se relíquia.

Grande parte das canções dos shows originais foi revivida no álbum de 1996 que faz também uma releitura de outras parcerias dos dois músicos. São 16 faixas, incluindo um pot-pourri, somando 21 canções, 17 das quais de autoria da dupla.

Destaque para VENENO, a música de maior sucesso do show original (“Dei o manto para quem vai me desnudar e em meu canto abriguei quem vai me expulsar. Eu te dei de beber. No mesmo copo você vai me envenenar”), inconcebível sem a magistral interpretação de Márcia, e DESPERDÍCIO (“meu coração cicatrizou mas nunca mais ficou perfeito, se enclausurou dentro do peito, renunciando a todo amor”).

Aparecem também os hits MAIOR É DEUS, um dos maiores êxitos de Beth Carvalho, E LÁ SE VÃO MEUS ANEIS, samba que deu à dupla o 1º lugar no Festival Universitário de 1971 da TV Tupi, sob a impagável interpretação d’OS ORIGINAIS DO SAMBA, e VERDE (parceria de Gudin com Costa Neto), 3º lugar no Festival dos Festivais da Globo de 1985, defendida pela principiante Leila Pinheiro (eleita cantora revelação do evento).

O título do espetáculo e do álbum, TUDO O QUE MAIS NOS UNIU, bem como o dos 2 shows em que se baseou, O IMPORTANTE É QUE NOSSA EMOÇÃO SOBREVIVA (VOL. 1 E VOL. 2) foram extraídos de MORDAÇA, faixa que finaliza os 3 espetáculos.

Sem o peso e a desesperança, presentes no show original, transcorrido durante a vigência do AI-5, no mesmo ano em que o jornalista Vladimir Herzog fora assassinado nas dependências do DOI-CODI, o novo espetáculo pegou um país democratizado com os artistas e o público mais descontraídos, em que a obra pôde ser apreciada menos por sua conotação política do que pelas qualidades musicais e poéticas de 3 artistas fundamentais da nossa música.

O álbum foi relançado em 2000 pela Dabliú por ocasião dos 50 anos de Gudin. Mas já sumiu do mercado de novo.

Conforme escreve o crítico Zuza Homem de Mello, na contracapa de apresentação do CD, “Essa parceria que fora tão concentrada e se tornou um tanto dispersa ao longa da careira individual de cada um desses dois exuberantes compositores, mostra ser nesse CD, uma das mais felizes, íntegras e destacadas das que foram geradas na terra do samba. Pudera: se Gudin e Paulinho já sabiam o que faziam há 20 anos, que tal agora, já ilustres e mais sábios?”

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Faixas:

1. Santo Dia (Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro)

2. Veneno (Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro)

3. O Cristal E O Marfim (Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro)

4. Velho Casarão (Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro) 

5. Arrebentação (Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro)

6. Recado ao Poeta (Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro)

7. Desperdício (Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro)

8. E Lá Se Vão Meus Anéis (Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro)

9. Consideração (Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro)  

10. Pot-pourri ''Roda De Samba'':

Caso (Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro)

Justiça (Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro)

Deixa Teu Mal (Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro)

Maior É Deus (Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro)

Chorei (Eduardo Gudin/Mauro Duarte/Paulo César Pinheiro)

11. Pensamento (Eduardo Gudin)

12. Mãos Vazias (Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro)

13. A Velhice da Porta-Bandeira (Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro)

14. Solidão (Paulo César Pinheiro)

15. Refém da Solidão (Baden Powell/Paulo César Pinheiro)

16. Verde (Eduardo Gudin/J. C. Costa Neto) / Mordaça (Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro) 



29 de jun. de 2022

PAULO DINIZ - ESTRADAS (1976)

 

Reza a lenda que o principiante Paulo Diniz foi demitido de seu emprego de locutor na rádio Jornal do Commercio de Recife por pronunciar errado nomes em inglês. De fato, caso ele tivesse afinidade com o idioma, saberia que a forma correta de seu famoso refrão “I wanna to go back to Bahia” seria “I want to go back” ou “I wanna go back”. Seja como for, se seguisse a carreira radialista, o Brasil ficaria privado do talento musical desse peculiar artista pernambucano que transitava do soul e do samba-rock até o pop romântico para desaguar em trabalhos mais elaborados, mas pouco divulgados. Teve canções gravadas por intérpretes do quilate de Elizeth Cardoso, Doris Monteiro, Clara Nunes, Simone, Emílio Santiago, Daniela Mercury, Wando, Bebeto, Rolando Boldrin e Jota Quest. Por problemas de saúde e de locomoção (contraiu esquistossomose), teve que se afastar dos palcos e das gravações e morreu quase no ostracismo.  

Como tantos de sua geração (Tim Maia, Hyldon), começou no iê-iê-iê, com O CHORÃO, compacto de 1966 que obteve razoável sucesso, com uma letra simplória, característica do estilo. Essa e outras gravações de sua fase inicial foram reunidas no álbum BRASIL, BRASA, BRASEIRO (1967) pelo selo Beverly/Copacabana, incorporado à EMI/ODEON, gravadora que passou a concentrar quase toda a obra do músico. A começar com EU QUERO VOLTAR PRA BAHIA, compacto de retumbante sucesso comercial (parceria com Odibar, seu fiel colaborador), canção de protesto composta em homenagem a Caetano Veloso que se encontrava exilado. Lançada durante os anos de chumbo da ditadura, passou incólume pelo crivo da censura. Caetano retribuiria a cortesia apenas em 2014, registrando a canção no show de lançamento do DVD ABRAÇAÇO, embora tivesse incorporado alguns versos em IF YOU HOLD A STONE (faixa de seu disco de 1971), entremeada por MARINHEIRO SÓ.

EU QUERO VOLTAR... integrou o álbum homônimo (1970), o mais importante da carreira do músico, em que abre espaço para a psicodelia (a começar pela capa) contendo ainda três outras composições conhecidas, todas parcerias com Odibar: UM CHOPE PRA DISTRAIR, PIRI PIRI e PONHA UM ARCO-ÍRIS NA SUA MORINGA, tema 'udigrudi' a ele proposto pelo poeta Paulo Leminski de quem foi amigo. A letra fazia menção a Wilson Simonal, eliminada nas versões posteriores, em vista do cruel processo de fritura de que Simona foi vítima, praticamente banido da MPB por suas supostas (mas nunca comprovadas) ligações com os órgãos de repressão, segundo denúncias fomentadas pelo jornal O Pasquim, o mesmo cujas publicações de Caetano, enviadas de Londres, inspiraram a faixa título. Ironicamente, Simonal tentou obter permissão para gravar a canção em primeira mão, porém o autor sabiamente preferiu, ele mesmo registrá-la com sua inconfundível voz rouca e vibrante.

O álbum seguinte, de 1971, contém a música mais conhecida de seu repertório, a balada romântica PINGOS DE AMOR, acolhida por um público mais amplo, sendo regravada por cantores populares como Sula Miranda, Turma do Pagode, Fernando Mendes, Ricardo Chaves e Wanderley Cardoso,  além de ser adotada como hino pelas torcidas do Grêmio e do Inter. Mas a versão que a revitalizou foi a do Kid Abelha.

Nessa fase áurea (começo dos anos 70), Diniz ganhou bastante dinheiro, muito bem gasto, segundo ele, com mulheres e bebida. Vencida essa etapa, entrou em contato com poetas vanguardistas pernambucanos como Juareiz Correya e Marconi Notaro e teve o suporte de músicos de renome como Nivaldo Ornelas, Wagner Tiso, Hélio Delmiro, Sivuca, Chico Batera, Gilson Peranzetta, Wilson das Neves, Gerson King Combo, Jarbas Mariz, o pessoal do Azymuth e o guitarrista Marcelo Sussekind (Herva Doce), este presente em todos os álbuns do período Odeon.

ESTRADAS, de 1976, talvez tenha sido o mais ambicioso. Aclamado pela crítica, recebeu cuidado especial da gravadora, com orquestração e regência do mestre João Donato e uma bela capa e contracapa, na qual o titular peregrina reflexivo pelo agreste. O álbum foi concebido a partir de uma caminhada a pé de 36 dias feita por Diniz de Recife a Juazeiro do Norte, terra do Padre Cícero, de quem sua mãe era devota, em companhia do amigo Juareiz Correya, letrista de 5 das faixas. Dentre elas, OCO DO MUNDO (não confundir com canção de Gilberto Gil com título semelhante) que nomearia um documentário sobre a vida do artista.

No disco, é musicado o poema de Manuel Bandeira, VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA, consagrando seu hábito de homenagear poetas de sua predileção, como já fizera com Carlos Drummond de Andrade, Gregório de Matos, Augusto dos Anjos, Jorge de Lima e Ferreira Gullar.

Ao contrário do que se imagina, AS ESTRADAS, bela composição de Luís Vagner e Tom Gomes, não faz parte do álbum cujo título inspirou, tendo sido editada em single.

ESTRADAS foi um dos poucos álbuns do artista lançado em CD, porém agregado ao álbum de 1970 na série 2 em 1. Uma pena que a Odeon, detentora dos direitos de 8 dos 11 discos do músico, prefira disponibilizar em CD apenas coletâneas, sempre com as mesmas faixas, ao invés de fazê-lo com os álbuns originais.

Paulo Diniz foi um músico brilhante que mereceria ter uma revisão de sua obra. Zeca Baleiro, um de seus fervorosos fãs, já demonstrou disposição de colaborar com tal iniciativa.

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Faixas:

1. Vou-me Embora Pra Pasárgada (Mús Paulo Diniz s/poema de Manuel Bandeira)

2. Capim da Lagoa (Paulo Diniz/Zé Castor)

3. A Seca (Waldir Neves)

4. Desejo Mudo (Paulo Diniz/Juarez Correya)

5. Junco do Seridó (Paulo Diniz/Juarez Correya)

6. Poema Para Léa (Paulo Diniz/Juarez Correya)

7. Baião das Alagoas (Paraibinha)

8. Ciranda do Mar (Paulo Diniz/Zé do Norte)

9. Peixe Vivo (Tradicional) - Participação: Nayde

10. Cravo Vermelho (Carlos Fernando)

11. Ôco do Mundo (Paulo Diniz/Juarez Correya)

12. Guarânia Morena (Paulo Diniz/Juarez Correya)



16 de jun. de 2022

ABÍLIO MANOEL - PENA VERDE (1970)

 


O nome não esconde: Abílio Manoel é de fato português, tendo-se estabelecido, no entanto, desde criança no Brasil.

PENA VERDE, sua canção mais emblemática, firmou-se como um clássico daquilo que se convencionou chamar de samba-rock, gênero que consagrou, dentre outros, Jorge Benjor, Banda Black Rio e Trio Mocotó e que fez furor nas pistas de dança, prenunciando os concorridos bailes de black music que agitaram a periferia de SP e RJ nos anos 70 e 80. O nome do artista acabou indevidamente associado a esse estilo musical, reforçado por outros dois hits com suingue semelhante: TUDO AZUL NA AMÉRICA DO SUL e LUIZA MANEQUIM.

Uma faceta improvável do músico lusitano revelou-se com o tema BOM DIA AMIGO, canção singela que se tornou conhecida do público infantil, propagada em ambientes escolares e paroquiais. Até Sílvio Santos incluiu a música em seu disco “Sílvio Santos e Suas Colegas de Trabalho”.

Esse perfil não parecia bater com quem teve sua iniciação musical no circuito universitário onde se projetou com ritmos baseados na MPB classuda e letras politicamente engajadas, decorrentes possivelmente de seu passado traumático, em que sua família precisou refugiar-se de Portugal, escapando da ditadura salazarista.

Tanto que, quando ainda pouco conhecido, conquistou, representando a USP (onde cursava Física), o prêmio de melhor compositor de um festival de música universitária latino-americana em Santiago no Chile em 1967.

Dois anos depois, mantendo trajetória compatível, daria o passo decisivo quando faturou o primeiro lugar do Festival Universitário da TV Tupi com PENA VERDE. O compacto simples com a canção (interpretada em dueto com Rosa Rebelo) alcançou amplo sucesso, atingindo os primeiros postos das paradas, tendo também nomeado o LP que a continha.

Nesse álbum de 1970, que contou com belos arranjos orquestrais dos maestros Luiz Arruda Pais e José Briamonte, Abílio assinou 10 das 12 faixas, dentre as quais destaca-se ANDRÉA, que tocou tão fundo os corações femininos que inspirou uma leva de mães a batizar as filhas com o nome.

As 5 canções citadas são do período em que o artista integrava o plantel da Odeon, encontrando-se reunidas nas coletâneas ANDRÉA (1982) e 20 SUCESSOS (1999), este o único disco de Abílio que a gravadora se dignou em disponibilizar em CD. Para quem se dispuser, o bolachão em vinil usado PENA VERDE pode ser adquirido em sebos mediante algumas centenas de reais.

Pra compensar, o músico teve convertidos para CD, graças à iniciativa do selo Discobertas, os dois álbuns que gravou pela Som Livre, AMÉRICA MORENA (1976) e BECOS E SAÍDAS (1978).

O grande débito que a cultura e a arte têm com Abílio Manoel, todavia, ainda não foi mencionado. Falecido em 2010, será ele eternamente lembrado por ter sido um incansável difusor entre nós da música latino-americana de raiz. Foi ele que trouxe para conhecimento público diversos expoentes, até então pouco divulgados, da música folclórica do continente como Mercedes Sosa, Violeta Parra, Victor Jara, Pablo Milanés e outros menos conhecidos, através do programa “América do Sol” que comandou por vários anos, pelas ondas da Bandeirantes FM.

Essa emissora, diga-se de passagem, em seu período inicial de atividades, em meados dos anos 70 (antes de se tornar ‘Band FM’), mantinha uma programação de altíssimo padrão, até hoje não equiparada no dial, em que dava espaço para música de qualidade de vários gêneros como MPB, pop/rock, instrumental etc. As mudanças que alcançaram a emissora, visando torná-la mais ‘popular’ não acabaram com o “América do Sol” que migrou para a USP FM onde perdurou por mais algum tempo.

Na esteira, foram lançados quatro magníficos álbuns-coletânea com o título AMÉRICA DO SOL (selo Copacabana) com um primoroso repertório de música latino-americana, que só chegaram ao ouvinte brasileiro graças à iniciativa de Abílio.

Obrigado, Portuga!

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Faixas:

1. Cavaleiro Andante (Abílio Manoel)

2. Pena Verde (Abílio Manoel) Participação: Rosa Rebelo

3. No Mundo da Lua (Abílio Manoel)

4. Verdejar (Abílio Manoel)

5. Aldeia (Abílio Manoel)

6. Catavento (Abílio Manoel)

7. Andrea (Abílio Manoel)

8. Rosa Cor de Rosa (Sorocaba/Abílio Manoel)

9. Caminhando Para o Azul (Geraldo Cunha/Rosemary Ventura)

10. Nas Areias da Lua (Osinete Marinho/Saulo Farias) Participação: Osinete Marinho

11. Arco-Íris (Abílio Manoel)

12. E Adriana Chorava (Abílio Manoel)

 

23 de fev. de 2022

RAUL SEIXAS – OS 24 MAIORES SUCESSOS DA ERA DO ROCK (1973)

  

Provindo dos EUA nos anos 50, o rock’n’roll expandiu-se para o mundo na década seguinte. No Brasil, a partir de Cely Campelo, Sérgio Murilo e Ronnie Cord e a seguir com a explosão da Jovem Guarda contrapôs-se à bossa nova e ao samba, conquistando a juventude com a magia da guitarra elétrica e letras banais.  Abriu caminho para uma nova geração de artistas liderados por Raul Seixas, Os Mutantes e Rita Lee reacendendo-se nos anos 80 com a proliferação de novos grupos (Titãs, Legião, Ira! etc.)

Ainda que possa ser considerado o maior expoente do rock nacional, Raul Seixas nunca abriu mão de sua brasilidade temperando-o com ingredientes regionais como o baião e letras provocativas, criativas e às vezes esotéricas, inspiradas no movimento hippie.

Fiel a suas origens, o artista baiano, homenageando os pioneiros do gênero, lançou o álbum OS 24 MAIORES SUCESSOS DA ERA DO ROCK, que saiu quase que simultaneamente ao primeiro grande êxito de sua discografia, o genial KRIG-HA BANDOLO! (também de 1973), sucesso de crítica e público, que continha vários de seus hits (alguns em parceria com Paulo Coelho) como OURO DE TOLO, METAMORFOSE AMBULANTE, MOSCA NA SOPA e AL CAPONE e no qual a gravadora apostava todas as fichas. 

O disco em homenagem ao rock, lançado poucos meses antes com uma capa espalhafatosa de gosto duvidoso onde se sobressaía a figura de um refrigerante, ladeada pelos nomes das canções, era atribuído ao conjunto fake Rock Generation. Com intuito de não interferir no desempenho do produto principal sobre o qual a gravadora concentrava seus esforços de divulgação, a menção ao nome de Raul Seixas, efetuada apenas na contracapa (ao lado do de Nelson Motta), restringia-se à produção. O disco, visto como um projeto de menor relevância, passou quase desapercebido e a Philips não se interessou em divulgá-lo.

Com a eclosão nacional do “maluco beleza”, consolidada com o álbum GITA de 1974 (dos hits SOCIEDADE ALTERNATIVA e GITA), a gravadora resolveu recauchutar o projeto original de Raul, em nova embalagem com seu retrato desenhado na nova capa, rebatizado como 20 ANOS DE ROCK, mudando também a ordem das faixas e inserindo falsos aplausos e palmas para dar ares de performance ao vivo. A nova versão foi devidamente creditada a seu idealizador e intérprete (algumas poucas faixas foram vocalizadas por um anônimo não referenciado). Essas mudanças à revelia do artista, não o agradaram pois fugiam ao formato original.

Não bastasse tantas intervenções, em 1985 a gravadora efetuou um re-relançamento em LP, alterando mais uma vez o nome que passou a ser 30 ANOS DE ROCK.

O lançamento em CD de 2001 felizmente recuperou o nome original porém com a capa remodelada e uma remixagem das faixas. O trabalho de recuperação efetuado pelo selo MZA Music em colaboração com a Universal, detentora dos direitos, recuperou, segundo o produtor Mazzola, os critérios originais concebidos pelo artista.

Nesse álbum, Raul fez uma candente homenagem a alguns dos grandes temas básicos do rock’n’roll. A interpretação visceral de Raul chega em alguns casos a rivalizar com a versão homenageada.

Logo no começo um petardo juntando os clássicos ROCK AROUND THE CLOCK (Bill Haley) BLUE SUEDE SHOES (Elvis), TUTTI FRUTTI e LONG TALL SALLY (ambas de Little Richard). Seguem-se os hits do iê-iê-iê, RUA AUGUSTA (Ronnie Cord) e O BOM (Eduardo Araújo).

Celly Campello ganhou uma faixa exclusiva agregando seus três grandes êxitos, as versões BANHO DE LUA, ESTÚPIDO CUPIDO E LACINHOS COR DE ROSA. The Platters também foram privilegiados ganhando duas faixas inteiras: THE GREAT PRETENDER e ONLY YOU. DIANA (Paul Anka) e OH, CAROL! (Neil Sedaka) foram unidas em outra faixa. Duas pérolas do repertório de Roberto Carlos, É PROIBIDO FUMAR e PEGA LADRÃO aparecem ao lado de MARCIANITA de Sérgio Murillo. E por aí vai. A seleção se encerra com chave de ouro com a poderosa VEM QUENTE QUE EU ESTOU FERVENDO, famosa na interpretação do Tremendão Erasmo Carlos.

Quatro anos depois, Raul deu prosseguimento ao sonho de homenagear seus ídolos com o álbum RAUL ROCK SEIXAS (1977), produzido por Roberto Menescal. Só que aqui apenas artistas internacionais ganharam espaço, além de uma composição sua com o guitarrista amigo Jay Vaquer, JUST BECAUSE. Fez questão de finalizar o trabalho com os versos iniciais de ASA BRANCA de Luiz Gonzaga.

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Faixas:

1. Abertura (Raul Seixas)

2. Rock Around The Clock (Knight/Freedman)/Blue Suede Shoes (Perkins)/Tutti Frutti (Richard/Lubin/Bostrie)/Long Tall Sally (Richard/Johnson/Blackwell)

3. Rua Augusta (Hervé Cordovil)/O Bom (Carlos Imperial)

4. Poor Little Fool (Sheeley)/Bernardine (Mercer)

5. Estúpido Cupido (Stupid Cupid) (Sedaka/Greenfield; Versão: Fred Jorge)/Banho de Lua (Tintarella Di Luna) (Filippi/Magliacci; Versão: Fred Jorge)/Lacinhos Cor-de-Rosa (Pink Shoes Laces) (Grant; Versão: Fred Jorge)

6. The Great Pretender (Ram)

7. Diana (Anka)/Little Darlin’ (Williams)/Oh, Carol! (Sedaka/Greenfield)/Runaway (Shannon/Crook)

8. Marcianita (José I. Marcone/Galvarino V. Alderete; Versão: Fernando César)/É Proibido Fumar (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)/Pega Ladrão (Getúlio Cortes)

9. Jambalaya (Williams)/Shake, Rattle And Roll (Calhoun)/Bop-a-Lena (Tills/Pierce)

10. Only You (Rand/Ram)

11. Vem Quente Que Eu Estou Fervendo (Carlos Imperial/Eduardo Araújo)


 

 

 

 

22 de jan. de 2022

ELZA SOARES – BATERISTA WILSON DAS NEVES (1968)

 

Elza Soares já era um mito na MPB e no samba, quando chamou Wilson das Neves, o ainda pouco conhecido baterista (embora já houvesse tocado com Eumir Deodato nos históricos grupos Os Catedráticos e Os Gatos e com o maestro Moacir Santos), para fazer uma revisão de sua carreira num novo álbum.

A ideia surgiu quando Elza fazia uma excursão pela Argentina acompanhada apenas por Wilson mais um conjunto local de apoio. Em suas apresentações, tinha por hábito dar espaço para os instrumentistas da banda provarem seu talento, solando durante alguns minutos. Ficou tão encantada com as habilidades do baterista que cogitou dividirem um álbum. Um executivo da EMI/Odeon, gravadora de Elza, consultado sobre as intenções da contratada, não aprovou a ideia, tentando dissuadi-la da iniciativa. Sem sucesso. Elza bancou seu prestígio não apenas em levar adiante o projeto como fez questão de dividir igualmente os créditos com Wilson e (sacrilégio!) colocá-lo na capa do álbum, a seu lado!

O LP fez sucesso e foi referenciado como um dos grandes exemplares de samba-jazz, abrindo caminho para o baterista tocar sua própria carreira individual. Veio ele a gravar no mesmo ano de 1968 o álbum JUVENTUDE 2000 e no ano seguinte SOM QUENTE É O DAS NEVES. Mais tarde, viria a se aventurar também como cantor e compositor. Além disso, passou a ser bastante requisitado em trabalhos com outros artistas seja de samba (Cartola, Nelson Cavaquinho, Beth Carvalho, Clara Nunes, Martinho da Vila) como de outros ritmos (Chico Buarque, Egberto Gismonti, João Donato, Elis Regina, Nara Leão, Jorge Benjor).

Indagado se não via necessidade de incrementar o acompanhamento com mais instrumentos, Wilson disse que a voz da sambista já era por si só um instrumento.

Estão nesse álbum alguns clássicos em que Elza demonstra toda a versatilidade de sua interpretação ímpar e sua inconfundível rouquidão como “Se Acaso Você Chegasse” (Lupicínio Rodrigues), seu primeiro grande sucesso, e “Mulata Assanhada” (Ataulfo Alves). Tem também standards da bossa nova como “Garota de Ipanema” (Tom/Vinícius), “O Pato” (Jaime Silva, Nélson Teixeira), “Samba de Verão” (irmãos Valle), “Balanço Zona Sul” (Tito Madi).

Há ainda a versão da sambista carioca para “Deixa Isso pra Lá” (Alberto Paz e Édson Menezes), sucesso de Jair Rodrigues, hoje em evidência por ter sido identificada como o primeiro rap brasileiro, prova de fogo para a dupla revelar seu talento num perfeito diálogo voz-percussão.

Os arranjos são do músico Nelsinho do Trombone (Nélson Pereira dos Santos), que assina também a faixa “Teleco-Teco nº 2”, e a produção musical é do maestro Lyrio Panicali.

O álbum chegou a CD remasterizado em 2002 pela série Odeon 100 Anos de Música no Brasil, sob supervisão de Charles Gavin, porém já se tornou raridade (o LP então nem se fale...).

Foi também lançado compondo o box Caixa Preta, organizado por Marcelo Fróes, com 12 CDs sob formato 2 em 1, esmerado trabalho englobando toda a produção da dona do Voz do Milênio (como foi reconhecida) para o período 1960/1988 mais faixas bônus.

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Faixas:

1. Balanço Zona Sul (Tito Madi)

2. Deixa Isso Pra Lá (Alberto Paz/Edson Menezes)

3. Garota de Ipanema (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)

4. Edmundo (In The Mood) (Joe Garland/Andy Razaf/Vrs. Aloysio de Oliveira)

5. O Pato (Jaime Silva/Neuza Teixeira)

6. Copacabana (João de Barro/Alberto Ribeiro)

7. Teleco-teco Nº 2 (Nelsinho/Oldemar Magalhães)

8. Saudade da Bahia (Dorival Caymmi)

9. Samba de Verão (Marcos Valle/Paulo Sérgio Valle)

10. Se Acaso Você Chegasse (Lupicínio Rodrigues/Felisberto Martins)

11. Mulata Assanhada (Ataulfo Alves)

12. Palhaçada (Luiz Reis/Haroldo Barbosa)




8 de nov. de 2021

EGBERTO GISMONTI – DANÇA DAS CABEÇAS (1976)

 

A respeitada gravadora alemã ECM prima por deter um seleto catálogo de jazz de vanguarda, música erudita contemporânea e world music. Conhecida como ‘selo do silêncio’, ou ‘o som mais belo depois do silêncio’ tem rígidos procedimentos para preservar a excelência técnica e artística dos trabalhos que têm o privilégio de estampar sua grife.

Alguns dos renomados artistas que tiveram suas obras lançadas pela ECM são Pat Metheny, Keith Jarrett, Jan Garbarek, Jack de Johnette, Chick Corea, Ralph Towner, Dave Holland, Gary Burton, Charlie Haden, Terje Rypdal e John Abercrombie.

O Brasil pode se orgulhar de ter cravado dois instrumentistas virtuosos nesse seleto clube: Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos. Eles dividem o álbum DANÇA DAS CABEÇAS, um marco na carreira artística de ambos. Viriam a lançar juntos também o disco DUAS VOZES (1985), além de outras obras pela mesma gravadora.

DANÇA DAS CABEÇAS, além de ser seu primeiro trabalho pelo selo ECM, marca o ingresso de Gismonti no mercado internacional. O disco arrebanhou diversos prêmios internacionais que o tornaram mundialmente conhecido.

Nele, Egberto desfila toda sua habilidade no manejo do violão de oito cordas e ao piano, além de tocar flauta de madeira. Embora o disco seja apenas a ele imputado, o mais honesto seria dividir os créditos com Naná que forneceu o essencial suporte no berimbau, na percussão e nas vocalizações.

Curioso que, efetivado o convite da     ECM, a intenção original de Egberto era envolver diversos músicos brasileiros no projeto (Robertinho Silva, Luiz Alves e Nivaldo Ornellas). Ocorre que à época, o país vivia sob um regime militar que criava empecilhos a projetos de natureza cultural. Havia uma exigência absurda de que músicos que desejassem participar de gravações no exterior, deveriam empenhar um vultoso depósito compulsório para conseguir a concessão, o que inviabilizou financeiramente a ida dos instrumentistas requisitados.

A reunião com Naná Vasconcelos, que já se encontrava na Europa, deu-se através da apresentação de um amigo comum, permitindo a readequação do projeto que, por pouco, não foi solo. O conceito do álbum, exposto a Naná e prontamente por ele acatado era que se tratava de dois curumins andando na floresta amazônica densa e úmida e vendo pântanos, clareiras, animais, rios, índios etc.

Essa concepção elaborada por Gismonti aparentemente era apenas uma diretriz geral já que as faixas que compõem o álbum, à exceção de “Dança Solitária”, não eram inéditas nem guardam relação com a temática. Já estavam presentes (com arranjos bem diferentes) em discos anteriores do músico e também no álbum ALTURA DO SOL (1975) do flautista norte-americano Paul  Horn (inédito no Brasil), integralmente dedicado ao músico brasileiro e com sua participação.

Todas as faixas são de Egberto, (uma delas em parceria com Geraldo Carneiro) exceto “Águas Luminosas” de autoria de sua ex-mulher Dulce Bressane e “Fé Cega Faca Amolada”, consagrada canção de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, presente no álbum MINAS (1975).

No lançamento em vinil, as seis primeiras faixas se entrelaçam num continuum, formando a “Parte 1”, que ocupa o lado A do LP em que prevalece o violão. O mesmo ocorre em relação às demais faixas que compõem a “Parte 2”, integrando o lado B, onde o piano se sobressai.

O disco foi gravado e mixado em apenas em três dias em Oslo, em conformidade com as normas adotadas pela ECM.

A impactante foto que ilustra a capa de autoria do fotógrafo húngaro Lajos Kereztes, apesar de sua beleza, foge ao padrão da gravadora, normalmente composto por pinturas abstratas ou pictóricas paisagens glaciais. A imagem, escolhida por Gismonti, exibe o muro intensamente avermelhado de uma residência humilde, com uma janela que revela um pano roto pendurado num varal. Gismonti escolheu a foto por denotar que mesmo ambientes modestos e despojados exalam beleza, algo que sua música pretende demonstrar.

Conforme define o crítico Tyran Grillo do site ‘ecmreviews.com’, “é o tipo de música que alegra estar vivo, uma lufada de clareza no ar poluído.”

Na extensa discografia de Egberto de mais de 50 títulos, esse se sobressai como um dos mais marcantes de sua carreira. Lançado em vinil no Brasil pela EMI, o álbum é, apesar de sua relevância, difícil de se achar em CD, até mesmo no exterior, embora tenha sido lançado em diversos países.

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Faixas:

 

1 - Quarto Mundo + 1 (Egberto Gismonti)

2 --Dança das Cabeças (Egberto Gismonti)

3 - Águas Luminosas (Dulce Bressane)

4 - Celebração de Núpcias (Egberto Gismonti)

5 - Porta Encantada (Egberto Gismonti)

6 - Quarto Mundo + 2 (Egberto Gismonti)

7 - Tango (Egberto Gismonti/Geraldo Carneiro)

8 - Bambuzal (Egberto Gismonti)

9 - Fé Cega, Faca Amolada (Milton Nascimento/Ronaldo Bastos)

10 - Dança Solitária (Egberto Gismonti)

 

 

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