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16 de jun. de 2022

ABÍLIO MANOEL - PENA VERDE (1970)

 


O nome não esconde: Abílio Manoel é de fato português, tendo-se estabelecido, no entanto, desde criança no Brasil.

PENA VERDE, sua canção mais emblemática, firmou-se como um clássico daquilo que se convencionou chamar de samba-rock, gênero que consagrou, dentre outros, Jorge Benjor, Banda Black Rio e Trio Mocotó e que fez furor nas pistas de dança, prenunciando os concorridos bailes de black music que agitaram a periferia de SP e RJ nos anos 70 e 80. O nome do artista acabou indevidamente associado a esse estilo musical, reforçado por outros dois hits com suingue semelhante: TUDO AZUL NA AMÉRICA DO SUL e LUIZA MANEQUIM.

Uma faceta improvável do músico lusitano revelou-se com o tema BOM DIA AMIGO, canção singela que se tornou conhecida do público infantil, propagada em ambientes escolares e paroquiais. Até Sílvio Santos incluiu a música em seu disco “Sílvio Santos e Suas Colegas de Trabalho”.

Esse perfil não parecia bater com quem teve sua iniciação musical no circuito universitário onde se projetou com ritmos baseados na MPB classuda e letras politicamente engajadas, decorrentes possivelmente de seu passado traumático, em que sua família precisou refugiar-se de Portugal, escapando da ditadura salazarista.

Tanto que, quando ainda pouco conhecido, conquistou, representando a USP (onde cursava Física), o prêmio de melhor compositor de um festival de música universitária latino-americana em Santiago no Chile em 1967.

Dois anos depois, mantendo trajetória compatível, daria o passo decisivo quando faturou o primeiro lugar do Festival Universitário da TV Tupi com PENA VERDE. O compacto simples com a canção (interpretada em dueto com Rosa Rebelo) alcançou amplo sucesso, atingindo os primeiros postos das paradas, tendo também nomeado o LP que a continha.

Nesse álbum de 1970, que contou com belos arranjos orquestrais dos maestros Luiz Arruda Pais e José Briamonte, Abílio assinou 10 das 12 faixas, dentre as quais destaca-se ANDRÉA, que tocou tão fundo os corações femininos que inspirou uma leva de mães a batizar as filhas com o nome.

As 5 canções citadas são do período em que o artista integrava o plantel da Odeon, encontrando-se reunidas nas coletâneas ANDRÉA (1982) e 20 SUCESSOS (1999), este o único disco de Abílio que a gravadora se dignou em disponibilizar em CD. Para quem se dispuser, o bolachão em vinil usado PENA VERDE pode ser adquirido em sebos mediante algumas centenas de reais.

Pra compensar, o músico teve convertidos para CD, graças à iniciativa do selo Discobertas, os dois álbuns que gravou pela Som Livre, AMÉRICA MORENA (1976) e BECOS E SAÍDAS (1978).

O grande débito que a cultura e a arte têm com Abílio Manoel, todavia, ainda não foi mencionado. Falecido em 2010, será ele eternamente lembrado por ter sido um incansável difusor entre nós da música latino-americana de raiz. Foi ele que trouxe para conhecimento público diversos expoentes, até então pouco divulgados, da música folclórica do continente como Mercedes Sosa, Violeta Parra, Victor Jara, Pablo Milanés e outros menos conhecidos, através do programa “América do Sol” que comandou por vários anos, pelas ondas da Bandeirantes FM.

Essa emissora, diga-se de passagem, em seu período inicial de atividades, em meados dos anos 70 (antes de se tornar ‘Band FM’), mantinha uma programação de altíssimo padrão, até hoje não equiparada no dial, em que dava espaço para música de qualidade de vários gêneros como MPB, pop/rock, instrumental etc. As mudanças que alcançaram a emissora, visando torná-la mais ‘popular’ não acabaram com o “América do Sol” que migrou para a USP FM onde perdurou por mais algum tempo.

Na esteira, foram lançados quatro magníficos álbuns-coletânea com o título AMÉRICA DO SOL (selo Copacabana) com um primoroso repertório de música latino-americana, que só chegaram ao ouvinte brasileiro graças à iniciativa de Abílio.

Obrigado, Portuga!

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Faixas:

1. Cavaleiro Andante (Abílio Manoel)

2. Pena Verde (Abílio Manoel) Participação: Rosa Rebelo

3. No Mundo da Lua (Abílio Manoel)

4. Verdejar (Abílio Manoel)

5. Aldeia (Abílio Manoel)

6. Catavento (Abílio Manoel)

7. Andrea (Abílio Manoel)

8. Rosa Cor de Rosa (Sorocaba/Abílio Manoel)

9. Caminhando Para o Azul (Geraldo Cunha/Rosemary Ventura)

10. Nas Areias da Lua (Osinete Marinho/Saulo Farias) Participação: Osinete Marinho

11. Arco-Íris (Abílio Manoel)

12. E Adriana Chorava (Abílio Manoel)

 

23 de fev. de 2022

RAUL SEIXAS – OS 24 MAIORES SUCESSOS DA ERA DO ROCK (1973)

  

Provindo dos EUA nos anos 50, o rock’n’roll expandiu-se para o mundo na década seguinte. No Brasil, a partir de Cely Campelo, Sérgio Murilo e Ronnie Cord e a seguir com a explosão da Jovem Guarda contrapôs-se à bossa nova e ao samba, conquistando a juventude com a magia da guitarra elétrica e letras banais.  Abriu caminho para uma nova geração de artistas liderados por Raul Seixas, Os Mutantes e Rita Lee reacendendo-se nos anos 80 com a proliferação de novos grupos (Titãs, Legião, Ira! etc.)

Ainda que possa ser considerado o maior expoente do rock nacional, Raul Seixas nunca abriu mão de sua brasilidade temperando-o com ingredientes regionais como o baião e letras provocativas, criativas e às vezes esotéricas, inspiradas no movimento hippie.

Fiel a suas origens, o artista baiano, homenageando os pioneiros do gênero, lançou o álbum OS 24 MAIORES SUCESSOS DA ERA DO ROCK, que saiu quase que simultaneamente ao primeiro grande êxito de sua discografia, o genial KRIG-HA BANDOLO! (também de 1973), sucesso de crítica e público, que continha vários de seus hits (alguns em parceria com Paulo Coelho) como OURO DE TOLO, METAMORFOSE AMBULANTE, MOSCA NA SOPA e AL CAPONE e no qual a gravadora apostava todas as fichas. 

O disco em homenagem ao rock, lançado poucos meses antes com uma capa espalhafatosa de gosto duvidoso onde se sobressaía a figura de um refrigerante, ladeada pelos nomes das canções, era atribuído ao conjunto fake Rock Generation. Com intuito de não interferir no desempenho do produto principal sobre o qual a gravadora concentrava seus esforços de divulgação, a menção ao nome de Raul Seixas, efetuada apenas na contracapa (ao lado do de Nelson Motta), restringia-se à produção. O disco, visto como um projeto de menor relevância, passou quase desapercebido e a Philips não se interessou em divulgá-lo.

Com a eclosão nacional do “maluco beleza”, consolidada com o álbum GITA de 1974 (dos hits SOCIEDADE ALTERNATIVA e GITA), a gravadora resolveu recauchutar o projeto original de Raul, em nova embalagem com seu retrato desenhado na nova capa, rebatizado como 20 ANOS DE ROCK, mudando também a ordem das faixas e inserindo falsos aplausos e palmas para dar ares de performance ao vivo. A nova versão foi devidamente creditada a seu idealizador e intérprete (algumas poucas faixas foram vocalizadas por um anônimo não referenciado). Essas mudanças à revelia do artista, não o agradaram pois fugiam ao formato original.

Não bastasse tantas intervenções, em 1985 a gravadora efetuou um re-relançamento em LP, alterando mais uma vez o nome que passou a ser 30 ANOS DE ROCK.

O lançamento em CD de 2001 felizmente recuperou o nome original porém com a capa remodelada e uma remixagem das faixas. O trabalho de recuperação efetuado pelo selo MZA Music em colaboração com a Universal, detentora dos direitos, recuperou, segundo o produtor Mazzola, os critérios originais concebidos pelo artista.

Nesse álbum, Raul fez uma candente homenagem a alguns dos grandes temas básicos do rock’n’roll. A interpretação visceral de Raul chega em alguns casos a rivalizar com a versão homenageada.

Logo no começo um petardo juntando os clássicos ROCK AROUND THE CLOCK (Bill Haley) BLUE SUEDE SHOES (Elvis), TUTTI FRUTTI e LONG TALL SALLY (ambas de Little Richard). Seguem-se os hits do iê-iê-iê, RUA AUGUSTA (Ronnie Cord) e O BOM (Eduardo Araújo).

Celly Campello ganhou uma faixa exclusiva agregando seus três grandes êxitos, as versões BANHO DE LUA, ESTÚPIDO CUPIDO E LACINHOS COR DE ROSA. The Platters também foram privilegiados ganhando duas faixas inteiras: THE GREAT PRETENDER e ONLY YOU. DIANA (Paul Anka) e OH, CAROL! (Neil Sedaka) foram unidas em outra faixa. Duas pérolas do repertório de Roberto Carlos, É PROIBIDO FUMAR e PEGA LADRÃO aparecem ao lado de MARCIANITA de Sérgio Murillo. E por aí vai. A seleção se encerra com chave de ouro com a poderosa VEM QUENTE QUE EU ESTOU FERVENDO, famosa na interpretação do Tremendão Erasmo Carlos.

Quatro anos depois, Raul deu prosseguimento ao sonho de homenagear seus ídolos com o álbum RAUL ROCK SEIXAS (1977), produzido por Roberto Menescal. Só que aqui apenas artistas internacionais ganharam espaço, além de uma composição sua com o guitarrista amigo Jay Vaquer, JUST BECAUSE. Fez questão de finalizar o trabalho com os versos iniciais de ASA BRANCA de Luiz Gonzaga.

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Faixas:

1. Abertura (Raul Seixas)

2. Rock Around The Clock (Knight/Freedman)/Blue Suede Shoes (Perkins)/Tutti Frutti (Richard/Lubin/Bostrie)/Long Tall Sally (Richard/Johnson/Blackwell)

3. Rua Augusta (Hervé Cordovil)/O Bom (Carlos Imperial)

4. Poor Little Fool (Sheeley)/Bernardine (Mercer)

5. Estúpido Cupido (Stupid Cupid) (Sedaka/Greenfield; Versão: Fred Jorge)/Banho de Lua (Tintarella Di Luna) (Filippi/Magliacci; Versão: Fred Jorge)/Lacinhos Cor-de-Rosa (Pink Shoes Laces) (Grant; Versão: Fred Jorge)

6. The Great Pretender (Ram)

7. Diana (Anka)/Little Darlin’ (Williams)/Oh, Carol! (Sedaka/Greenfield)/Runaway (Shannon/Crook)

8. Marcianita (José I. Marcone/Galvarino V. Alderete; Versão: Fernando César)/É Proibido Fumar (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)/Pega Ladrão (Getúlio Cortes)

9. Jambalaya (Williams)/Shake, Rattle And Roll (Calhoun)/Bop-a-Lena (Tills/Pierce)

10. Only You (Rand/Ram)

11. Vem Quente Que Eu Estou Fervendo (Carlos Imperial/Eduardo Araújo)


 

 

 

 

22 de jan. de 2022

ELZA SOARES – BATERISTA WILSON DAS NEVES (1968)

 

Elza Soares já era um mito na MPB e no samba, quando chamou Wilson das Neves, o ainda pouco conhecido baterista (embora já houvesse tocado com Eumir Deodato nos históricos grupos Os Catedráticos e Os Gatos e com o maestro Moacir Santos), para fazer uma revisão de sua carreira num novo álbum.

A ideia surgiu quando Elza fazia uma excursão pela Argentina acompanhada apenas por Wilson mais um conjunto local de apoio. Em suas apresentações, tinha por hábito dar espaço para os instrumentistas da banda provarem seu talento, solando durante alguns minutos. Ficou tão encantada com as habilidades do baterista que cogitou dividirem um álbum. Um executivo da EMI/Odeon, gravadora de Elza, consultado sobre as intenções da contratada, não aprovou a ideia, tentando dissuadi-la da iniciativa. Sem sucesso. Elza bancou seu prestígio não apenas em levar adiante o projeto como fez questão de dividir igualmente os créditos com Wilson e (sacrilégio!) colocá-lo na capa do álbum, a seu lado!

O LP fez sucesso e foi referenciado como um dos grandes exemplares de samba-jazz, abrindo caminho para o baterista tocar sua própria carreira individual. Veio ele a gravar no mesmo ano de 1968 o álbum JUVENTUDE 2000 e no ano seguinte SOM QUENTE É O DAS NEVES. Mais tarde, viria a se aventurar também como cantor e compositor. Além disso, passou a ser bastante requisitado em trabalhos com outros artistas seja de samba (Cartola, Nelson Cavaquinho, Beth Carvalho, Clara Nunes, Martinho da Vila) como de outros ritmos (Chico Buarque, Egberto Gismonti, João Donato, Elis Regina, Nara Leão, Jorge Benjor).

Indagado se não via necessidade de incrementar o acompanhamento com mais instrumentos, Wilson disse que a voz da sambista já era por si só um instrumento.

Estão nesse álbum alguns clássicos em que Elza demonstra toda a versatilidade de sua interpretação ímpar e sua inconfundível rouquidão como “Se Acaso Você Chegasse” (Lupicínio Rodrigues), seu primeiro grande sucesso, e “Mulata Assanhada” (Ataulfo Alves). Tem também standards da bossa nova como “Garota de Ipanema” (Tom/Vinícius), “O Pato” (Jaime Silva, Nélson Teixeira), “Samba de Verão” (irmãos Valle), “Balanço Zona Sul” (Tito Madi).

Há ainda a versão da sambista carioca para “Deixa Isso pra Lá” (Alberto Paz e Édson Menezes), sucesso de Jair Rodrigues, hoje em evidência por ter sido identificada como o primeiro rap brasileiro, prova de fogo para a dupla revelar seu talento num perfeito diálogo voz-percussão.

Os arranjos são do músico Nelsinho do Trombone (Nélson Pereira dos Santos), que assina também a faixa “Teleco-Teco nº 2”, e a produção musical é do maestro Lyrio Panicali.

O álbum chegou a CD remasterizado em 2002 pela série Odeon 100 Anos de Música no Brasil, sob supervisão de Charles Gavin, porém já se tornou raridade (o LP então nem se fale...).

Foi também lançado compondo o box Caixa Preta, organizado por Marcelo Fróes, com 12 CDs sob formato 2 em 1, esmerado trabalho englobando toda a produção da dona do Voz do Milênio (como foi reconhecida) para o período 1960/1988 mais faixas bônus.

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Faixas:

1. Balanço Zona Sul (Tito Madi)

2. Deixa Isso Pra Lá (Alberto Paz/Edson Menezes)

3. Garota de Ipanema (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)

4. Edmundo (In The Mood) (Joe Garland/Andy Razaf/Vrs. Aloysio de Oliveira)

5. O Pato (Jaime Silva/Neuza Teixeira)

6. Copacabana (João de Barro/Alberto Ribeiro)

7. Teleco-teco Nº 2 (Nelsinho/Oldemar Magalhães)

8. Saudade da Bahia (Dorival Caymmi)

9. Samba de Verão (Marcos Valle/Paulo Sérgio Valle)

10. Se Acaso Você Chegasse (Lupicínio Rodrigues/Felisberto Martins)

11. Mulata Assanhada (Ataulfo Alves)

12. Palhaçada (Luiz Reis/Haroldo Barbosa)




8 de nov. de 2021

EGBERTO GISMONTI – DANÇA DAS CABEÇAS (1976)

 

A respeitada gravadora alemã ECM prima por deter um seleto catálogo de jazz de vanguarda, música erudita contemporânea e world music. Conhecida como ‘selo do silêncio’, ou ‘o som mais belo depois do silêncio’ tem rígidos procedimentos para preservar a excelência técnica e artística dos trabalhos que têm o privilégio de estampar sua grife.

Alguns dos renomados artistas que tiveram suas obras lançadas pela ECM são Pat Metheny, Keith Jarrett, Jan Garbarek, Jack de Johnette, Chick Corea, Ralph Towner, Dave Holland, Gary Burton, Charlie Haden, Terje Rypdal e John Abercrombie.

O Brasil pode se orgulhar de ter cravado dois instrumentistas virtuosos nesse seleto clube: Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos. Eles dividem o álbum DANÇA DAS CABEÇAS, um marco na carreira artística de ambos. Viriam a lançar juntos também o disco DUAS VOZES (1985), além de outras obras pela mesma gravadora.

DANÇA DAS CABEÇAS, além de ser seu primeiro trabalho pelo selo ECM, marca o ingresso de Gismonti no mercado internacional. O disco arrebanhou diversos prêmios internacionais que o tornaram mundialmente conhecido.

Nele, Egberto desfila toda sua habilidade no manejo do violão de oito cordas e ao piano, além de tocar flauta de madeira. Embora o disco seja apenas a ele imputado, o mais honesto seria dividir os créditos com Naná que forneceu o essencial suporte no berimbau, na percussão e nas vocalizações.

Curioso que, efetivado o convite da     ECM, a intenção original de Egberto era envolver diversos músicos brasileiros no projeto (Robertinho Silva, Luiz Alves e Nivaldo Ornellas). Ocorre que à época, o país vivia sob um regime militar que criava empecilhos a projetos de natureza cultural. Havia uma exigência absurda de que músicos que desejassem participar de gravações no exterior, deveriam empenhar um vultoso depósito compulsório para conseguir a concessão, o que inviabilizou financeiramente a ida dos instrumentistas requisitados.

A reunião com Naná Vasconcelos, que já se encontrava na Europa, deu-se através da apresentação de um amigo comum, permitindo a readequação do projeto que, por pouco, não foi solo. O conceito do álbum, exposto a Naná e prontamente por ele acatado era que se tratava de dois curumins andando na floresta amazônica densa e úmida e vendo pântanos, clareiras, animais, rios, índios etc.

Essa concepção elaborada por Gismonti aparentemente era apenas uma diretriz geral já que as faixas que compõem o álbum, à exceção de “Dança Solitária”, não eram inéditas nem guardam relação com a temática. Já estavam presentes (com arranjos bem diferentes) em discos anteriores do músico e também no álbum ALTURA DO SOL (1975) do flautista norte-americano Paul  Horn (inédito no Brasil), integralmente dedicado ao músico brasileiro e com sua participação.

Todas as faixas são de Egberto, (uma delas em parceria com Geraldo Carneiro) exceto “Águas Luminosas” de autoria de sua ex-mulher Dulce Bressane e “Fé Cega Faca Amolada”, consagrada canção de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, presente no álbum MINAS (1975).

No lançamento em vinil, as seis primeiras faixas se entrelaçam num continuum, formando a “Parte 1”, que ocupa o lado A do LP em que prevalece o violão. O mesmo ocorre em relação às demais faixas que compõem a “Parte 2”, integrando o lado B, onde o piano se sobressai.

O disco foi gravado e mixado em apenas em três dias em Oslo, em conformidade com as normas adotadas pela ECM.

A impactante foto que ilustra a capa de autoria do fotógrafo húngaro Lajos Kereztes, apesar de sua beleza, foge ao padrão da gravadora, normalmente composto por pinturas abstratas ou pictóricas paisagens glaciais. A imagem, escolhida por Gismonti, exibe o muro intensamente avermelhado de uma residência humilde, com uma janela que revela um pano roto pendurado num varal. Gismonti escolheu a foto por denotar que mesmo ambientes modestos e despojados exalam beleza, algo que sua música pretende demonstrar.

Conforme define o crítico Tyran Grillo do site ‘ecmreviews.com’, “é o tipo de música que alegra estar vivo, uma lufada de clareza no ar poluído.”

Na extensa discografia de Egberto de mais de 50 títulos, esse se sobressai como um dos mais marcantes de sua carreira. Lançado em vinil no Brasil pela EMI, o álbum é, apesar de sua relevância, difícil de se achar em CD, até mesmo no exterior, embora tenha sido lançado em diversos países.

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Faixas:

 

1 - Quarto Mundo + 1 (Egberto Gismonti)

2 --Dança das Cabeças (Egberto Gismonti)

3 - Águas Luminosas (Dulce Bressane)

4 - Celebração de Núpcias (Egberto Gismonti)

5 - Porta Encantada (Egberto Gismonti)

6 - Quarto Mundo + 2 (Egberto Gismonti)

7 - Tango (Egberto Gismonti/Geraldo Carneiro)

8 - Bambuzal (Egberto Gismonti)

9 - Fé Cega, Faca Amolada (Milton Nascimento/Ronaldo Bastos)

10 - Dança Solitária (Egberto Gismonti)

 

 

10 de out. de 2021

JANE DUBOC E SEBASTIÃO TAPAJÓS – DA MINHA TERRA (1998)

 

Esquecido por críticos musicais, o Pará é um fecundo celeiro de ritmos dançantes. Foi lá, por exemplo, que surgiram a lambada e o “tecnobrega”, estilos que mesclaram ingredientes caribenhos e batidas eletrônicas aos sons nativos tradicionais (como o carimbó) e se espalharam pelo resto do país e para o exterior.  

Mas a presença do Pará no cenário nacional vai muito além desses efervescentes gêneros populares. Na seara da MPB, a capital, Belém, foi berço de três grandes intérpretes femininas que nunca deixaram de reverenciar suas origens: Fafá de Belém, Leila Pinheiro e Jane Duboc. 

O caso de Jane é singular dado o impressionante ecletismo que marcou sua trajetória. Começou sua carreira cantando em inglês, produzida por Raul Seixas. Seus dotes vocais impressionaram Egberto Gismonti, nascendo aí uma sólida parceria artística. Em 1983, integrou o grupo progressivo Bacamarte no elogiado álbum DEPOIS DO FIM. Teve forte ligação com o pessoal de Minas, especialmente Toninho Horta como em “Manual o Audaz” e Flávio Venturini como em “Besame”, dois de seus maiores êxitos. Dividiu álbuns com o renomado saxofonista americano Gerry Mulligan (PARAÍSO 1993) e com a veterana Zezé Gonzaga (CLÁSSICAS, 1999). Abriu uma brecha para canções românticas de alcance popular que ingressaram em trilhas de novelas. E ainda se dedicou ao público infantil. Antes mesmo de seu primeiro disco solo (o aclamado LANGUIDEZ de 1981), gravara o álbum ACALANTOS BRASILEIROS, tendo também participado durante essa fase inicial (em que assinava como Jane Vaquer), da coletânea MÚSICA POPULAR DO NORTE, ambos pelo selo cultural Marcus Pereira, o que revelava desde cedo seu empenho em divulgar a música oriunda de seu estado natal.

Essa vocação impulsionou-a a colocar em prática o projeto com o violonista Sebastião Pena Marcião, outro que nutre veneração pelas suas raízes paraenses, a começar pelo nome artístico que adotou, Sebastião Tapajós, homenageando o rio que banha Santarém, cidade próxima ao local onde nasceu (dentro de um barco ao que consta) e onde viria a falecer em 02/10/2021.

Tido como um dos mais exímios do mundo em sua categoria, Tapajós atuou ao lado de expoentes do jazz como Oscar Peterson, Gerry Mulligan, Astor Piazzola e Paquito d´Rivera além da nata da música instrumental nacional (Hermeto, Zimbo Trio, Baden Powell, Waldir Azevedo, Paulo Moura, Sivuca etc.). Tem mais de 50 álbuns gravados, difíceis de serem hoje obtidos, muitos deles independentes, disponíveis somente em vinil ou lançados apenas no exterior. É bastante cultuado na Alemanha e também na Argentina (país que editou nada menos do que 8 de seus álbuns, nos anos 70). Mas sua arte sempre esteve ligada a suas raízes amazônicas.

DA MINHA TERRA une a voz melodiosa de Duboc à exuberância técnica de Tapajós na execução de um repertório voltado para divulgar compositores que, pouco conhecidos no resto do país, são verdadeiras lendas naquele estado, como Waldemar Henrique, Nilson Chaves, Vital Lima e a dupla (pai e filho) Ruy Barata & Paulo André Barata. Esses últimos são autores da canção que consagrou Fafá de Belém, “Foi Assim” (não confundir com o hit homônimo da “ternurinha” Wanderléa). Tem também Billy Blanco, o único que furou a bolha e adquiriu projeção nacional graças a seu envolvimento com a bossa nova.

O disco, bancado pela pequena gravadora JAM (fundada pela própria cantora), é um trabalho de primeira com temas singelos e tocantes, executados com arranjo enxuto para realçar a doce voz de Jane.

No restrito mas qualificado time de acompanhantes, Arismar Espírito Santo no baixo e guitarra, Robertinho Silva na bateria e Proveta (líder da gloriosa Banda Mantiqueira) nos sopros. A registrar a ilustre participação de Altamiro Carrilho em “A Flauta” e a dupla presença de Dominguinhos: no melancólico acordeon de “Luz do Lampião” e em dueto vocal em “Tempo e Destino”.

Em meio às pérolas do cancioneiro paraense, sobressaem-se duas faixas instrumentais compostas por Tapajós: “Igapó” e “Barueri”. Nem mesmo nelas ficamos privados da presença de Jane que usa suas virtudes vocais como um instrumento a dialogar com o violão vigoroso e percussivo do músico.

Como resume o maestro Júlio Medalha na apresentação do CD, “Não se trata de fazer média com o folclore. São músicos realizados que juntaram seus talentos mostrando que a matéria prima brasileira pode nos oferecer um produto cultural criativo e sofisticado. O resultado é soberano”.

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Faixas:

1 . Da Minha Terra (Nilson Chaves/Jamil Damous)

2 . Uirapuru (Waldemar Henrique)

3 . Igapó (Sebastião Tapajós)

4 . Roda Do Bem Querer (Alfredo Oliveira)

5 . Cabocla Bonita (Tradicional)

6 . Luz de Lampião (Nilson Chaves/João Gomes)

7 . Boi-bumbá (Waldemar Henrique)

8 . A Flauta (Sebastião Tapajós/Billy Blanco)

9 . Azulão (Jaime Ovalle/Manuel Bandeira)

10 . Indauê Tupã (Paulo André Barata/Ruy Barata)

11 . Pergunte O Que Quiser (Galdino Penna)

12 . Tempo E Destino (Nilson Chaves/Vital Lima)

13 . Tambor De Coro (Ronaldo Silva)

14 . Tempo De Amar (Campos Ribeiro)

15 . Bom Dia Belém (Edyr Proença/Adalcinda Camarão)

16 . Barueri (Sebastião Tapajós)

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