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11 de mai. de 2021

CASSIANO – COLEÇÃO (2000)

 

Pode-se afirmar que a importância de Cassiano para a música nacional equivale à de Marvin Gaye para a norte-americana. Ou, como propõe Ed Motta, creditá-lo como nosso Stevie Wonder. Outros preferem associá-lo a Otis Redding, Sam Cooke ou Isaac Hayes. Deixando de lado tais paralelismos, sempre imprecisos, o certo é que Genival Cassiano, ou apenas Cassiano como era conhecido, teve uma trajetória bastante particular no universo da música brasileira.

Ainda que não tenha explodido comercialmente, sua relevância musical, associada à sua personalidade esquiva, elevou-o à condição de mito. Sua impressionante musicalidade, a voz contida e a interpretação cool (em oposição às performances retumbantes e emotivas de Tim Maia), herdadas de sua formação bossanovista (era fã de João Gilberto), fizeram com que ele não alcançasse a merecida repercussão pública. A escassa produção, o enorme tempo de recolhimento e o temperamento retraído afastaram-no dos holofotes, apesar de ser cultuado por uma legião de artistas dos mais diversos gêneros. Regravaram seus hits, dentre outros, representantes da MPB como Gil, do axé como Ivete Sangalo, do samba como Alcione, do pagode como o grupo Pixote e até do rap. As reiteradas menções de Mano Brown dos Racionais despertaram a admiração de uma nova safra de ouvintes que hoje acorre a suas obras com interesse.

O fato é que, antes de se firmar como expoente da música negra, Cassiano foi nos anos 60 violonista do grupo Bossa Trio que misturava bossa nova com samba-jazz ou ‘sambalanço’, com um toque de Rhythm & Blues. O conjunto foi o embrião d’Os Diagonais, grupo basilar para explicar o florescimento da black music, tendo gravado dois álbuns em que misturava de forma pioneira samba e funk, e que contou também com a presença de Hyldon.

Juntamente com Tim Maia e Hyldon, Cassiano formou a trindade do funk raiz e do brazilian soul, gêneros musicais que viveram seus tempos de glória nos profícuos anos 70, concomitantemente com o apogeu do rock, do tropicalismo e da fase áurea da MPB.

A coletânea VELHOS CAMARADAS, lançada nos anos 90 pela Universal, resgatou para as novas gerações a nata do trabalho desses três pilares da black music, reunindo os hits expressivos de cada um. O álbum alcançou tamanho êxito que ensejou a edição de um volume 2.

A trajetória de Tim Maia se confunde com a de Cassiano e não é exagero a este creditar grande parte do sucesso do ‘síndico’. Basta constatar que o aclamado álbum de estreia de Tim, de 1970, reconhecido como um dos mais relevantes da MPB, contém, dentre suas 12 faixas, nada menos do que 4 composições de Cassiano. São de sua autoria “Você Fingiu”, os mega-hits “Primavera” e “Eu Amo Você” e uma inusitada mescla de soul com baião, “Padre Cícero” (curiosamente rebatizada como “João Coragem” para ingressar na trilha da novela Irmãos Coragem). Além disso, Cassiano participou com a guitarra e os backing vocals ao lado dos companheiros d’Os Diagonais.

Na esteira da bem sucedida parceria com Tim Maia, Cassiano lançou pela RCA seu primeiro álbum solo, IMAGEM E SOM (1971), com a versão do autor para o clássico “Primavera”.

Seguiu-se o surpreendente álbum APRESENTAMOS NOSSO CASSIANO (1973), tido como uma aventura experimental e anticomercial, com toques de psicodelia e até rock progressivo. Um álbum arrojado com ricas orquestrações e melodias elaboradas (como na faixa “A Casa de Pedra”), que arrancou elogios dos críticos mas afastou o artista do grande público.

O êxito comercial viria com CUBAN SOUL em 1976, lançado pela Sony, que contém suas mais conhecidas interpretações, “A Lua e Eu” e “Coleção”, ambas parcerias com Paulo Zdanowski. Essas baladas bombaram após figurarem nas trilhas das novelas globais O Grito e Locomotivas respectivamente.

Esses três álbuns tornaram-se relíquias, disputadas nos sebos a preços exorbitantes, sendo que CUBAN SOUL foi reeditado recentemente pela Polysom, na série Clássicos em Vinil.

 Essa discografia enxuta justifica-se pelo fato de o músico ter sofrido uma tuberculose, tendo retirado um dos pulmões, o que comprometeu a qualidade de suas interpretações. Devido a isso, um novo trabalho, em fase de conclusão, foi abortado pela SONY (CBS à época) que ponderou em sua decisão as limitações vocais do cantor, associadas ao fato de sua pouca receptividade junto ao público, insuficiente para render retorno financeiro ao empreendimento. Depois disso, Cassiano mergulhou num ostracismo o que lhe valeu a fama de recluso.

Ainda que com tais restrições, um 4º trabalho haveria de ser lançado pela mesma gravadora depois de 15 anos de afastamento: CEDO OU TARDE (1991) reunindo quase que exclusivamente remakes de seus maiores sucessos. O álbum contou com as ilustres participações de Marisa Monte, Djavan, Luiz Melodia, Ed Motta, Sandra de Sá, Cláudio Zoli e Karla Sabah. Apesar da produção esmerada e da bela e interessante capa, que remete aos clássicos do blues americano, o resultado não agradou Cassiano e não emplacou comercialmente.

Quanto a COLEÇÃO lançado em 2000, consiste, na verdade, em uma compilação das faixas mais representativas dos 3 primeiros álbuns, sendo que a seleção do repertório coube ao gabaritado discípulo Ed Motta que estranhamente deixou “Primavera” de fora, (seria por razões de direitos autorais?). O projeto foge pois ao padrão comum de coletâneas caça-níqueis lançadas pelas gravadoras com critérios meramente mercadológicos. Trata-se de um trabalho de excelência encomendado pelo exigente selo Dubas, sob a supervisão do compositor Ronaldo Bastos. O resultado é um painel representativo para conhecer o trabalho do grande músico paraibano. Para quem preferir mergulhar com tudo na obra do artista, a melhor alternativa mesmo é arrematar os demais álbuns, todos felizmente disponíveis em CD.

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Faixas:

1. Coleção (Cassiano/Paulo Zdanowski)

2. De Bar Em Bar (Cassiano/Paulo Zdanowski)

3. Melissa (Cassiano)

4. É Isso Aí (Cassiano)

5. Hoje É Natal (Cassiano/Paulo Zdanowski)

6. Salve Essa Flor (Cassiano/Paulo Zdanowski)

7. Não Fique Triste (Cassiano)

8. Cedo Ou Tarde (Cassiano/Suzana)

9. Ana (Cassiano/Paulo Zdanowski)

10. Já (Cassiano)

11. Uma Lágrima (Cassiano)

12. A Casa de Pedra (Cassiano)

13. A Lua E Eu (Cassiano/Paulo Zdanowski)

14. Saia Dessa Fossa (Cassiano/Paulo Zdanowski)

13 de abr. de 2021

PAULINHO DA VIOLA - BEBADOSAMBA (1996)

 

Falar sobre a genialidade de Paulinho da Viola é redundância. O tímido compositor que despontou de um círculo de sambistas freqüentadores do bar Zicartola (RJ), saiu melhor que a encomenda. E sua trajetória não parou de surpreender público e críticos, extravasando o universo do samba. Por trás de sua figura franzina e sua música aparentemente elementar, esconde-se um gênio inovador que se revela, por exemplo, na revolucionária “Sinal Fechado”, ácida crítica à incomunicabilidade na vida moderna, com um arrojado arranjo instrumental e elementos sonoros que tangem o erudito. Ou, quando, numa improvável parceria com Arrigo Barnabé, compôs a pós-moderna “Crotalus Terrificus” do álbum TUBARÕES VOADORES.

Sua obra musical e sua poesia sofisticada já foram objetos de análise de livros e teses universitárias. Independente de tudo o que sobre ele se discorreu, o negócio de Paulinho da Viola é mesmo o samba e a Portela. Um samba, ressalve-se, bastante requintado e diferenciado. Mas que jamais deixou de se referenciar nos grandes mestres do gênero como Cartola, Candeia e Nelson Cavaquinho. E o choro, claro, herdado de seu pai, o violonista César Faria.

Após integrar o conjunto Voz do Morro e dividir um disco com Elton Medeiros (SAMBA NA MADRUGADA), engatou uma bem sucedida carreira solo com mais de uma dezena de antológicos LPs pela Odeon, que trazem alguns de seus memoráveis momentos: “Foi um Rio que Passou em Minha Vida”, “Dança da Solidão”, “Guardei Minha Viola”, “Coração Leviano”, “Argumento”... Esses álbuns foram lançados em CD pela EMI em uma tacada só, remasterizados no famoso estúdio Abbey Road em Londres, numa caprichada edição que preservou capas e encartes originais e os brindou com faixas bônus.

Depois disso, a produção começou a escassear. BEBADOSAMBA surgiu após sete anos de jejum e marca o ingresso do artista na BMG.  Um grande disco, a começar pela bela capa de Elifas Andreato, com o título fazendo um jogo de palavras. Segundo Paulinho, há um duplo significado: incentivar que o ouvinte “beba do samba” e propor-lhe um “porre” de samba.

Traz as ótimos “Memórias Conjugais” à la Aldir Blanc, “Bebadosamba”, uma evocação a seus mestres e o ‘hit’ “Timoneiro”  (com os inspirados versos: “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”), parceria com Hermínio de Carvalho. Outras parcerias desfilam: Elton Medeiros, Sérgio Natureza e uma inusitada colaboração com o poeta Ferreira Gullar, “Solução de Vida”, um samba “filosófico”.

Na instrumentação apurada sobressaem-se o piano de Cristóvão Bastos, o sax de Zé Nogueira e o de Mario Séve, o clarinete de Dirceu Leite, o trombone de Vittor Santos, a flauta de Carlos Malta e o cavaquinho de Luciana Rabello. Na batera e ao violão, respectivamente os mestres Wilson das Neves e Dino 7 Cordas. Só fera. Sem esquecer a nobre presença da Velha Guarda da Portela e do conjunto de choro Época de Ouro protagonizado por seu pai.

A obra foi laureada com o prêmio Sharp, proporcionou um Disco de Ouro para Paulinho e o show de divulgação rendeu um álbum duplo ao vivo (BEBADACHAMA).

Dessa maneira, Paulinho retomou sua carreira em grande estilo, antes de mergulhar em novo período de ostracismo, quebrado apenas com seu álbum ACÚSTICO MTV ao vivo, uma década depois.

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Faixas:

1. Quando O Samba Chama (Paulinho da Viola)

2. Timoneiro (Paulinho da Viola/Hermínio Bello de Carvalho)

3. Ame (Paulinho da Viola/Élton Medeiros) – Particip.: Élton Medeiros

4. Alento (Paulo César Pinheiro)

5. É Dificil Viver Assim (Paulinho da Viola)

6. O Ideal É Competir (Candeia/Casquinha)

7. Novos Rumos (Rochinha/Orlando Porto)

8. Memórias Conjugais (Paulinho da Viola)

9. Reverso Da Paixão (Paulinho da Viola)

10. Dama De Espadas (Paulinho da Viola)

11. Solução De Vida (Paulinho da Viola/Ferreira Gullar)

12. Peregrino (Noca da Portela/Toninho Nascimento)

13. Mar Grande (Paulinho da Viola/Sérgio Natureza) – Particip.: Conj. Época de Ouro

14. Bebadosamba (Paulinho da Viola)

31 de mar. de 2021

GILBERTO GIL & JORGE BEN – OGUM, XANGÔ (1975)

 

A ideia de promover um despojado encontro entre esses dois monstros sagrados da MPB registrando-o em disco nasceu a partir de um jantar informal proporcionado pela Philips (à época, Phonogram) na casa de André Midani, presidente da gravadora. Além dos dois músicos, teriam sido chamados diversos artistas nacionais (dentre os quais, Caetano, Rita Lee, Erasmo Carlos e Nélson Motta). Também deram o ar de sua graça dois dos maiores astros internacionais do blues e do folk, Eric Clapton e Cat Stevens, que estavam de passagem pelo Rio. A amostra do que seria o álbum fascinou os presentes, a ponto de Clapton e Cat terem se esquivado a se envolver, alegando nada ter a acrescentar a um projeto que já parecia irretocável.

Batido o martelo, a Philips preparou o suporte técnico para reproduzir em estúdio a atmosfera mágica revelada na residência de Midani. A gravadora, que atravessava seu período áureo, pôde se dar ao luxo de bancar essa iniciativa incomum com a finalidade de agregar prestígio à gravadora.

Apesar do minimalismo da empreitada em que Gil e Jorge são escoltados apenas por seus respectivos violões, a qualidade sonora ficou irrepreensível.

Nas gravações, foi concedida plena liberdade aos músicos, de modo que se trata de uma performance marcada pelo experimentalismo e faixas quilométricas.

A expectativa é que essa obra pouco convencional não tivesse o objetivo de alcançar sucesso comercial, mas apenas celebrar a excepcional musicalidade de dois artistas já consagrados e no auge de suas carreiras. A lembrar: os trabalhos anteriores de Gil e Jorge haviam sido respectivamente REFAZENDA (1975) e TÁBUA DE ESMERALDAS (1974), reconhecidamente duas de suas mais eloquentes obras primas.

Os artistas despem-se de suas aclamadas condições de cantores e compositores para dar vazão a seu virtuosismo no manejo do rudimentar instrumento de 6 cordas, condimentando-o com seu característico swing. Apenas a presença, vez ou outra, do baixo de Wagner Dias e da percussão de Djalma Corrêa, os únicos acompanhantes. Nada mais.

Não houve maiores preparativos. A partir de um repertório pré-estabelecido, os músicos se entregaram de corpo e alma a improvisações em apenas duas sessões de gravação.

O casamento das habilidades mostrou-se surpreendentemente harmônico. Somando o ritmo refinado de Gil ao balanço visceral de Jorge, enlevados pela negritude da expressão musical que os une, o resultado foi extasiante. Um disco para escutar de joelhos.

Apesar de haver apenas 4 faixas inéditas das 9 incluídas no álbum (4 composições de cada um e uma parceria), as versões em clima de jam session  tornam o trabalho envolvente do começo ao fim.

É o caso de TAJ MAHAL de Jorge Ben, do famoso refrão “teteteteretê” (que inspirou Rod Stewart a criar seu êxito DA YA THING I´M SEXY, reconhecida posteriormente como plágio). Original do álbum de BEN (1972), a canção aqui recebe um arranjo que a estica por mais de 14 minutos de puro êxtase. JURUBEBA, composição inédita de Gil com uma letra que enaltece as propriedades da “planta nobre do sertão” para tratamento do “figueiredo”, é outro momento maiúsculo.

O LP duplo, batizado com o nome de dois orixás reverenciados pelos artistas, não teve, como era de se esperar, grandes vendas e nenhuma das faixas aportou no rádio, nem mesmo ESSA É PRA TOCAR NO RÁDIO (original do disco REFAZENDA de Gil) cuja concepção peculiar parece conferir-lhe um destino oposto ao pressuposto no seu título.

Paralelamente, foi tentada uma versão mais digerível para o grande público, um álbum simples com as músicas cortadas pela metade e uma foto convencional dos músicos na capa substituindo a bela arte de Rogério Duarte que ilustra a original. Dispensável. Esse encontro memorável merece ser deleitado em sua integralidade de quase 80 minutos, uma viagem sonora indescritível.

Foi convertido num único CD, com o frustração de ter tido algumas músicas ‘encurtadas’.

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Faixas:

1.         "Meu Glorioso São Cristóvão" (Jorge Ben) 8:16

2.         "Nega" (Gilberto Gil) 10:34

3.         "Jurubeba" (Gilberto Gil) 11:37

4.         "Quem Mandou (Pé na Estrada)" (Jorge Ben) 6:51

5.         "Taj Mahal" (Jorge Ben) 14:42

6.         "Morre o Burro, Fica o Homem" (Jorge Ben) 6:03

7.         "Essa É pra Tocar no Rádio" (Gilberto Gil) 6:19

8.         "Filhos de Gandhi" (Gilberto Gil) 13:03

9.         "Sarro" (Gilberto Gil / Jorge Ben) 1:23



21 de fev. de 2021

ARRELIA – RIDE PALHAÇO (1958)

 


A marchinha de Carnaval faz parte da história da música brasileira e é mais velha do que o samba. Quando Donga registrou sua composição PELO TELEFONE, oficialmente considerado o primeiro samba da história, a marchinha Ô ABRE ALAS de 1899, de autoria da maestrina Chiquinha Gonzaga, já contava com 17 anos de idade.

O ritmo reinou absoluto no Carnaval durante o período de 1920 a 1960. Apenas a partir da década de 1960 foi destituído nos desfiles das escolas de samba pelo samba-enredo. Perdeu também espaço, lamentavelmente, nos blocos de rua para o axé e canções descartáveis que mal duram até a próxima estação.

Permanecem, todavia,  as marchinhas, com suas letras provocativas e de fácil memorização, na lembrança de todos. Traduzem o espírito alegremente transgressor do nosso povo. "A marchinha é um gênero marcado pela crônica de época e pela malícia", diz o musicólogo Ricardo Cravo Albin.

Devido a suas características desaforadas, têm elas sido alvo de intolerância decorrente da onda do politicamente correto que tem assolado nossa cultura nos últimos tempos.

O pesquisador Rodrigo Faour desaprova: “Sou contra o patrulhamento excessivo em cima das músicas de carnaval. Elas são um patrimônio brasileiro, não podemos botar uma carga tão pesada em cima delas. Existem palavras que não são aceitas hoje, mas, na época, eram faladas de maneira não pejorativas”.

Algumas das mais recentes trazem uma conotação sexual e de fato estão eivadas de preconceito como é o caso de CABELEIRA DO ZEZÉ, MARIA SAPATÃO e A PIPA DO VOVÔ, divulgadas pelos capciosos apresentadores de auditório Chacrinha e Sílvio Santos.

Permanecesse nesse nicho, a polêmica não teria maiores repercussões para a cultura nacional. O problema é quando a perseguição atinge compositores tradicionais como Haroldo Lobo, Braguinha, Ary Barroso e Noel Rosa cujas músicas passaram ter sua execução vetada, numa cruzada moralizadora não vista nem nos tempos do AI-5.

No caso do pretenso ‘racismo’, a atenção voltou-se às centenas de canções que usaram a palavra ‘mulata’ (presumidamente derivada de mula). Apesar da suposta origem depreciativa, a questão é se vale a pena crucificar o termo, já incorporado ao vocabulário cotidiano uma vez que o uso corrente consagrou uma nova conotação sem nenhuma vinculação com a espúria raiz etimológica.

A esse respeito, assim se manifesta o cronista Ruy Castro: “Das dezenas de marchas que falam da ‘mulata’, muitas foram compostas por Assis Valente, Wilson Baptista, Haroldo Lobo, Zé e Zilda, Haroldo Barbosa, Monsueto etc. etc., e lançadas por cantores como Orlando Silva, Silvio Caldas, Aracy de Almeida, Carmen Costa, Cyro Monteiro, Moreira da Silva, Jorge Veiga, Ângela Maria etc. etc. Todos mulatos. E não viam nenhum problema nisso.”

Nem mesmo o ícone Caetano Veloso escapou de constar no Index Prohibitorum por referir-se em sua música TROPICÁLIA aos “olhos verdes da mulata”.

Uma das principais vítimas da cruzada anti-racista foi a consagrada O TEU CABELO NÃO NEGA, a mais famosa composição de Lamartine Babo, eleita pela Revista Veja a 3ª maior marchinha de todos os tempos.

Além da amaldiçoada palavra ‘mulata’, os atentos patrulheiros revisionistas se fixaram no verso “mas como a cor não pega” (em que ‘pega’ teria o sentido de transmitir a ‘maldição’ da cor negra). O jornalista Tárik de Souza, um dos maiores estudiosos da nossa música, rebate alegando que o ‘pega’ em questão mais possivelmente significaria ‘importa’, o que confere ao verso, ao contrário do que propalam seus críticos, uma acepção anti-racista.

O fato é que o humor atrevido não escapava da obra de Lamartine.  Que ia muito além. Estende-se a clássicos como SERRA DA BOA ESPERANÇA, SONHEI QUE TU ESTAVAS TÃO LINDA e a celebrada NO RANCHO FUNDO. O samba-canção, parceria com Ary Barroso, recebeu inúmeras gravações (inclusive de sertanejos como Chitãozinho e Xororó, cuja versão acabou tornando-se a mais conhecida do público).

São de Babo também duas das mais populares marchinhas de festas juninas, CHEGOU A HORA DA FOGUEIRA e ISSO É LÁ COM SANTO ANTÔNIO, imortalizadas pela dupla Carmen Miranda & Mário Reis.

Além disso, compôs hinos para os principais times de futebol carioca (inclusive o do América de que era torcedor).

Mas Babo tornou-se mesmo famoso pelas suas conhecidas marchinhas que fizeram a alegria dos foliões. Uma primorosa seleção foi reunida nesse disco, lançado pela Copacabana, sob o nome de RIDE PALHAÇO, canção que abre o disco, inspirada na ópera Pagliacci de Leoncavallo. Nele, o maior palhaço de todos os tempos, o debochado Waldemar Seyssel, vulgo Arrelia, com sua irreverência circense, revela-se um intérprete bastante apropriado para a divertida obra de Lamartine reunindo doze dos melhores temas, alguns cantados em dueto com o próprio compositor.

Sob a escrachada interpretação do palhaço, desfilam O TEU CABELO... e outras pérolas carnavalescas como MOLEQUE INDIGESTO, LINDA MORENA, HISTÓRIA DO BRASIL e A.E. I.O.U (parceria com Noel Rosa), além dos referidos temas juninos. Todas com o ilustre acompanhamento da histórica bandinha do mestre Altamiro Carrilho, já à época um dos flautistas mais requisitados pelos cantores do rádio.

Esse foi o único LP de Arrelia que no entanto gravou vários 78 rotações, o mais famoso em 1951, com a canção MUITO BEM ao lado do seu inseparável companheiro de picadeiro Pimentinha (seu sobrinho) que revelou o famoso bordão “Como vai? Como vai? Vai, vai, vai. Muito bem! Muito bem! Bem! Bem!” que se tornou sua marca registrada durante sua vida artística no saudoso Circo do Arrelia que por mais de 15 anos alegrou a petizada nas telas da TV Record.

Esse disco (obviamente não lançado em CD) pode ser com alguma sorte encontrado em sebos.

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Faixas:

01 – Ride Palhaço (Marcha) – Lamartine Babo

02 – Moleque Indigesto (Marcha) – Lamartine Babo

03 – Ahi, Hein !?…(Marcha) – Lamartine Babo e Paulo Valença

04 – História… Do Brasil (Marcha) – Lamartine Babo

05 – A…E…I…O…U… (Marcha) – Lamartine Babo e Noel Rosa

06 – Linda Morena (Marcha) – Lamartine Babo

07 – Só Dando Com Uma Pedra Nela… (Samba) – Lamartine Babo

08 – Isto É Lá Com Santo Antônio (Marcha – Canção) – Lamartine Babo

09 – Babo…Zeira… (Ranchera – Charge) – Lamartine Babo

10 – Chegou A Hora Da Fogueira (Marcha) – Lamartine Babo

11 – Boa Bola (Marcha) – Lamartine Babo e Paulo Valença

12 – Teu Cabelo Não Nega!… (Marcha) – Lamartine Babo e Irmãos Val



26 de jan. de 2021

BOCA LIVRE – BICICLETA (1980)

 

Despontando no fim dos anos 70, como grupo de apoio a nomes como Edu Lobo e Milton Nascimento, o Boca Livre não parecia ser fadado a prosperar num projeto próprio.

À época, as gravadoras investiam apenas em artistas consagrados e música de baixa qualidade com maior apelo comercial. Nesse contexto, a proposta de um conjunto vocal com repertório focado em música brasileira de primeira linha, um domínio sobre o qual o consagrado MPB-4 já marcara território, não parecia promissora.

Tanto que o desacreditado quarteto formado originalmente por Maurício Maestro, Zé Renato, Cláudio Nucci e David Tygel teve que bancar com recursos próprios seu primeiro vinil de 1979. O resultado foi surpreendente: mais de 100 mil cópias vendidas a partir da divulgação (com perdão da expressão) “boca a boca”. Um êxito absoluto nas circunstâncias.

O disco que contém as manjadíssimas TOADA e QUEM TEM A VIOLA (em que já se evidenciara a genialidade criativa da dupla Cláudio Nucci e Zé Renato) foi marco na história da produção cultural independente. Coroado pelo sucesso, o Boca seria mais tarde convidado a integrar o seleto elenco da Polygram.

Antes disso, porém (já sem a presença de Nucci, substituído por Lourenço Baeta), o Boca aventurou-se por uma segunda empreitada independente: o disco BICICLETA.

A faixa que nomeia o álbum, de autoria de Zé Renato, é uma obra prima instantânea, tornando-se a mais popular do disco. Surpreendente para uma canção sem palavras para cantarolar, interpretada em formato vocalise.

Curiosamente, 36 anos após, a canção recebeu uma letra de Cláudio Nucci, sendo lançada com essa nova roupagem nas plataformas digitais com o subtítulo de LIBERDADE E MOVIMENTO, assinada por Zé Renato e Nucci.

Apesar da louvável iniciativa, não foi páreo para a insuperável versão original, brindada com o belíssimo arranjo vocal que era justamente seu diferencial.  De fato, parece que os três minutos intercalados entre o preparatório “um, dois... um, dois, três, quatro” e o derradeiro retinir de uma prosaica campainha de bicicleta, prescindem do ornamento de palavras: é MÚSICA em estado puro.

Na capa, guiada por uma revoada de pássaros coloridos e tendo como pano de fundo um azulíssimo céu pincelado com brancas nuvens, corre solta uma magrela (simbolizando a liberdade e o prazer de viver), parecendo oferecer carona ao ouvinte para embarcar na garupa dessa viagem sonora.

O maravilhoso disco emplacou outras canções (AS MOÇAS, UM CANTO DE TRABALHO, NENÉM). Ainda assim, vendeu menos que o álbum inicial, embora seja, no mínimo, tão bom quanto. Sem falar na ilustre presença de ninguém menos do que Tom Jobim ao piano (nas canções CORRENTEZA e SACI), além de Naná Vasconcelos, Leo Gandelman, Nélson Ângelo, Novelli, Danilo Caymmi e Paulo Jobim.

Inacreditavelmente, nunca saiu em CD.

Esse mesmo time (Maestro, Zé Renato, Tygel e Baeta) manteve-se inalterado até 1992. Após um período de dissensões, substituições e retornos, essa formação clássica voltou a vigorar em 2006 perdurando por mais 15 anos.

Em 2021, o conjunto tristemente se dissolveu, com a saída coletiva de Zé Renato, Baeta e Tygel inconformados com as posições políticas de Maurício, detentor dos direitos do nome artístico do grupo.

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FAIXAS:

01 – Um Canto de Trabalho (Nelson Ângelo e Cacaso)

02 – As Moças (José Renato e Juca Filho)

03 – Correnteza  (Tom Jobim e Luis Bonfá)

04 – Neném (Maurício Maestro)

05 – Porto Seguro (David Tygel e Márcio Borges)

06 – Bicicleta (José Renato)

07 – Saci (Paulo Jobim e Ronaldo Bastos)

08 – Passarinho (Lourenço Baeta)

09 – Boi do Maranhão (Sérgio Habibe)

10 – Arado (Dalmo Medeiros)

11 – Nossa Dança (Danilo Caymmi e Ana Terra)



24 de jan. de 2021

GENIVAL LACERDA – AQUI TEM CATIMBERÊ (1975)

 

Não se sabe se ‘forró’ deriva de ‘forrobodó’ (festança) como dizem alguns etimólogos ou se é uma corruptela da expressão em inglês ‘for all’ como sustenta outra ala, em que se inclui, por exemplo, Geraldo Azevedo. O que é certo, no forró, é que, como diz a canção de Dominguinhos, ‘quem tá fora quer entrar mas quem tá dentro não sai”.

Controvérsias à parte, o forró é consensualmente uma autêntica manifestação cultural do Nordeste como a literatura de cordel, a capoeira e o acarajé, havendo inclusive uma iniciativa junto ao IPHAN para torná-lo patrimônio imaterial do Brasil.

Através de sua vertente ‘forró universitário’, conquistou a juventude dos grandes centros do Sudeste, com conjuntos de sucesso baseados no eixo SP/RJ como Falamansa, Rastapé, Bicho de Pé, Circuladô de Fulô, Trio Virgulino, Trio Forrozão, Forroçacana. A despeito das reservas dos puristas, esse movimento musical urbano, que teve seu auge nos anos 90, nunca deixou de se conectar aos grandes nomes tradicionais do forró e afins (xote, baião, xaxado, arrasta-pé).

Percebendo esse potencial, a indústria cultural criou mais recentemente uma versão estilizada, o ‘forró eletrônico’ ou ‘tecnobrega’ (apelidada por Chico César de ‘forró de plástico’). Grupos como Mastruz com Leite, Limão com Mel, Calcinha Preta, Aviões do Forró e Os Magníficos (curiosamente, todos sediados no Nordeste) arrastavam multidões a seus shows pirotécnicos cujas performances glamourizadas pouco lembram a coreografia singela do “forró pé de serra” de Luiz Gonzaga. A soberana sanfona foi destronada e substituída pelo órgão eletrônico e às imprescindíveis picardias foram adicionadas fúteis temáticas românticas.

Nesse universo, o som de Genival Lacerda soava extemporâneo, assim como suas apresentações, onde estavam presentes o indefectível chapéu coco, a roupa multicolorida e a maneira singular de se requebrar desengonçado no palco, carregando o barrigão saliente. Suas letras eram carregadas de deboche e ressaltavam a malícia e o duplo sentido. Devido a isso, alguns tachavam sua música de porno-xote, pecha que o artista, ofendido, rejeitava, alegando, por exemplo, jamais ter lançado mão de palavrões.

Conforme explica o músico Silvério Pessoa (da banda Cascabulho), “Genival fez parte de um clã que está em extinção, o forró ligeiro quebrado, dividido, lúdico.” Tendo como suporte o trio básico acordeon/zabumba/triângulo que caracteriza o forró de raiz, bebeu direto das fontes originais que moldaram seus álbuns iniciais quando ainda não dava tanto espaço para as brejeirices que viriam a marcar a segunda metade da sua carreira.

Enfim, um genuíno representante da primeira geração do forró que inclui nomes emblemáticos como Ary Lobo, Gordurinha, Marinês, Clemilda, Anastácia, Trio Nordestino e sobretudo os gigantes Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Em sua discografia, constam aliás um tributo a Jackson do Pandeiro (que era aliás seu concunhado) e outro em que revisa a obra de Luiz Gonzaga (participação de Fagner, Elba Ramalho e Chico César).

Embora tenha gravado mais de 70 álbuns, consagrou-se mesmo com a música SEVERINA XIQUE XIQUE (co-autoria com João Gonçalves) de 1975 com o famoso refrão “ele tá de olho na butique dela” que se tornou sua marca registrada e estendeu seu prestígio para todo o país. A canção ganhou releitura de uma pá de artistas de renome: Zeca Pagodinho, Marisa Monte, Nando Reis, Zeca Baleiro, MPB-4, Pato Fu.

A faixa puxou as vendas do álbum AQUI TEM CATIMBERÊ, selo Copacabana. Curioso que essa gravadora, sediada em São Paulo, embora tivesse em seu elenco muitos intérpretes populares, não era especializada em música nordestina e resistiu em bancar o projeto de Genival, cujo lançamento acabaria por lhe render 800 mil cópias vendidas.

O álbum NÃO DESPREZE O SEU COROA (1979) denota outro ponto alto na carreira do artista paraibano. Com arranjos de Sivuca e a presença de Dominguinhos, esse disco traz os hits ROCK DO JEGUE (referenciado em uma faixa do único disco dos Mamonas Assassinas) e RADINHO DE PILHA (regravada pelo grupo Camisa de Vênus).

Descontando suas capas de gosto duvidoso em que aparece ao lado de mulheres de biquíni, e as letras com tom machista (“tem mulher que só aprende quando o coro desce” in RADINHO DE PILHA), que retratam os preconceitos e os valores de grande parte do seu público, Genival é um exímio cronista de costumes que carrega o espírito original do forró voltado ao indivíduo das classes menos favorecidas e aos contratempos dos imigrantes, amenizados com humor.

Como diz Marcelo D2: “(ele) faz lembrar a alegria do Brasil, me conecta com meus antepassados e traz uma sensação boa de felicidade”.

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Faixas:

1- Severina Xique-Xique (João Gonçalves/Genival Lacerda)

2- A Filha de Mané Bento (João Gonçalves/Genival Lacerda)

3- Deixem Ela Sofrer (Joca de Castro/Genival Lacerda)

4- Bahia do Catimberê (Haroldo Francisco/Orlando Deco)

5- Benzinho (Brito Lucena)

6- Ela É do Contra (Durval Vieira)

7- Para Papagaio (Antônio Barros)

8- Meu Barco Afundou (Luis Boquinha)

9- Leão de Cafieira (Severino Ramos)

10- Vamos Brincar de Roda (João Gonçalves/Genival Lacerda)

11- Morena Faceira (Brito Lucena)

12- Tenente Bezerra (Gordurinha)

OS BORGES (1980)

Embora o jornalista mineiro Salomão Borges não tivesse se dedicado à música, era por ela um aficionado. Isso explica a paixão de 7 dos seus 11 filhos pela arte. Aquele que herdou o nome do pai, Salomão Borges Filho, o 6º da linhagem, mais conhecido como Lô Borges, tornou-se o mais famoso da prole. É co-responsável por aquele que é unanimemente considerado um dos principais álbuns da história da MPB, o antológico CLUBE DA ESQUINA de 1972 ao lado de Milton Nascimento, além de ter uma carreira solo bem sucedida sintetizada em quase 20 álbuns.

O primeiro deles, o famoso “disco do tênis” saiu no mesmo ano, 1972, seguido de VIA LÁCTEA de 1979 e SONHO REAL de 1981. Entre esses dois últimos, OS BORGES que, embora costume aparecer na discografia de Lô, não deveria, por justiça, ser exclusivamente a ele creditado. O cantor e compositor mineiro, já consagrado, participa interpretando apenas duas músicas, procurando dar espaço para que seus irmãos revelassem seus dotes.

Sob a batuta do velho Salomão e de Dona Maricota, progenitora da clã (que para não destoar da moçada, era pianista), desfilam os brothers Márcio, Yê, Marilton, Nico, Telo e Solange Borges (única representante do sexo feminino). Destaque para Márcio Borges, outro que se projetara como compositor e letrista em célebres parcerias com a trupe do Clube da Esquina.

OS BORGES foi um projeto despojado de Lô com a intenção de registrar em vinil o ambiente cultural reinante em seu apartamento em Belo Horizonte. A capa que traz uma foto do quarto dos “meninos”, revela esse clima com pôsteres e instrumentos espalhados pelo chão. Retratos dos 4 Beatles no canto superior não escondem uma das principais influências.  

A faixa de abertura “Em Família” (Márcio e Yê) interpretada por todos traduz a empatia entre irmãos afins (“Na minha casa tem mulher que briga, na minha casa tem homem que chora”).

A atmosfera caseira do projeto oculta algumas participações inacreditáveis. Em “Carona”, ao lado de Marilton, a presença de um tal de Gonzaguinha. Na faixa derradeira, “Pros Meninos”, ao lado de Nico, comparece Milton Nascimento. Em “Outro Cais” a canja especial é de ninguém menos do que Elis Regina (a própria).

Destacam-se “Ainda” e a gravação original de “Voa Bicho”, ambas de Telo e Márcio, com orquestração de Guilherme Arantes. Essa última ficou mais conhecida ao ser regravada por Milton Nascimento e Maria Rita no disco Pietá de 2003.  

A galeria de fotos que encarta o LP revela que as sessões de gravações contaram com outros bambas: Toninho Horta, Naná Vasconcelos, César Camargo Mariano, Nivaldo Ornelas, Marçal, Fredera...

O vinil dessa obra prima era disputadíssimo, até que a EMI/Odeon dignou-se em lançá-lo em CD em 2002. A má notícia é que quem quiser adquiri-lo vai ter de desembolsar uma pequena fortuna pois está fora de catálogo e, assim como o LP, é raro.

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Faixas:

1. "Em Família" (Márcio Borges, Yé Borges) - Os Borges 4:08

2. "Carona" (Marilton Borges)  Marilton Borges (Partic: Gonzaguinha) 2:53

3. "Voa, Bicho" (Márcio Borges, Telo Borges) - Telo Borges/Solange Borges 3:50

4. "Um Sonho Na Correnteza" (Márcio Borges, Yé Borges) Solange Borges/Yé Borges 3:08

5. "Ainda" (Márcio Borges, Telo Borges)- Telo Borges/Marilton Borges 3:29

6. "O Sapo" (Tradicional) - Os Borges 2:20

7. "Eu Sou Como Você É" (Lô Borges) - Lô Borges/Marilton Borges 3:41

8. "Outro Cais" (Duca Leal, Marilton Borges) - Elis Regina 2:03

9. "No Tom De Sempre" (Márcio Borges , Chico Lessa) - Chico Lessa/Lô Borges 3:57

10. "Qualquer Caminho" (Márcio Borges) - Márcio Borges/Marilton Borges 3:17

11. "Daniel" (Nico Borges, Solange Borges) - Solange Borges 3:17

12. "Pros Meninos" (Duca Leal, Nico Borges) - Nico Borges/Milton Nascimento 4:38

 

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