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21 de fev. de 2021

ARRELIA – RIDE PALHAÇO (1958)

 


A marchinha de Carnaval faz parte da história da música brasileira e é mais velha do que o samba. Quando Donga registrou sua composição PELO TELEFONE, oficialmente considerado o primeiro samba da história, a marchinha Ô ABRE ALAS de 1899, de autoria da maestrina Chiquinha Gonzaga, já contava com 17 anos de idade.

O ritmo reinou absoluto no Carnaval durante o período de 1920 a 1960. Apenas a partir da década de 1960 foi destituído nos desfiles das escolas de samba pelo samba-enredo. Perdeu também espaço, lamentavelmente, nos blocos de rua para o axé e canções descartáveis que mal duram até a próxima estação.

Permanecem, todavia,  as marchinhas, com suas letras provocativas e de fácil memorização, na lembrança de todos. Traduzem o espírito alegremente transgressor do nosso povo. "A marchinha é um gênero marcado pela crônica de época e pela malícia", diz o musicólogo Ricardo Cravo Albin.

Devido a suas características desaforadas, têm elas sido alvo de intolerância decorrente da onda do politicamente correto que tem assolado nossa cultura nos últimos tempos.

O pesquisador Rodrigo Faour desaprova: “Sou contra o patrulhamento excessivo em cima das músicas de carnaval. Elas são um patrimônio brasileiro, não podemos botar uma carga tão pesada em cima delas. Existem palavras que não são aceitas hoje, mas, na época, eram faladas de maneira não pejorativas”.

Algumas das mais recentes trazem uma conotação sexual e de fato estão eivadas de preconceito como é o caso de CABELEIRA DO ZEZÉ, MARIA SAPATÃO e A PIPA DO VOVÔ, divulgadas pelos capciosos apresentadores de auditório Chacrinha e Sílvio Santos.

Permanecesse nesse nicho, a polêmica não teria maiores repercussões para a cultura nacional. O problema é quando a perseguição atinge compositores tradicionais como Haroldo Lobo, Braguinha, Ary Barroso e Noel Rosa cujas músicas passaram ter sua execução vetada, numa cruzada moralizadora não vista nem nos tempos do AI-5.

No caso do pretenso ‘racismo’, a atenção voltou-se às centenas de canções que usaram a palavra ‘mulata’ (presumidamente derivada de mula). Apesar da suposta origem depreciativa, a questão é se vale a pena crucificar o termo, já incorporado ao vocabulário cotidiano uma vez que o uso corrente consagrou uma nova conotação sem nenhuma vinculação com a espúria raiz etimológica.

A esse respeito, assim se manifesta o cronista Ruy Castro: “Das dezenas de marchas que falam da ‘mulata’, muitas foram compostas por Assis Valente, Wilson Baptista, Haroldo Lobo, Zé e Zilda, Haroldo Barbosa, Monsueto etc. etc., e lançadas por cantores como Orlando Silva, Silvio Caldas, Aracy de Almeida, Carmen Costa, Cyro Monteiro, Moreira da Silva, Jorge Veiga, Ângela Maria etc. etc. Todos mulatos. E não viam nenhum problema nisso.”

Nem mesmo o ícone Caetano Veloso escapou de constar no Index Prohibitorum por referir-se em sua música TROPICÁLIA aos “olhos verdes da mulata”.

Uma das principais vítimas da cruzada anti-racista foi a consagrada O TEU CABELO NÃO NEGA, a mais famosa composição de Lamartine Babo, eleita pela Revista Veja a 3ª maior marchinha de todos os tempos.

Além da amaldiçoada palavra ‘mulata’, os atentos patrulheiros revisionistas se fixaram no verso “mas como a cor não pega” (em que ‘pega’ teria o sentido de transmitir a ‘maldição’ da cor negra). O jornalista Tárik de Souza, um dos maiores estudiosos da nossa música, rebate alegando que o ‘pega’ em questão mais possivelmente significaria ‘importa’, o que confere ao verso, ao contrário do que propalam seus críticos, uma acepção anti-racista.

O fato é que o humor atrevido não escapava da obra de Lamartine.  Que ia muito além. Estende-se a clássicos como SERRA DA BOA ESPERANÇA, SONHEI QUE TU ESTAVAS TÃO LINDA e a celebrada NO RANCHO FUNDO. O samba-canção, parceria com Ary Barroso, recebeu inúmeras gravações (inclusive de sertanejos como Chitãozinho e Xororó, cuja versão acabou tornando-se a mais conhecida do público).

São de Babo também duas das mais populares marchinhas de festas juninas, CHEGOU A HORA DA FOGUEIRA e ISSO É LÁ COM SANTO ANTÔNIO, imortalizadas pela dupla Carmen Miranda & Mário Reis.

Além disso, compôs hinos para os principais times de futebol carioca (inclusive o do América de que era torcedor).

Mas Babo tornou-se mesmo famoso pelas suas conhecidas marchinhas que fizeram a alegria dos foliões. Uma primorosa seleção foi reunida nesse disco, lançado pela Copacabana, sob o nome de RIDE PALHAÇO, canção que abre o disco, inspirada na ópera Pagliacci de Leoncavallo. Nele, o maior palhaço de todos os tempos, o debochado Waldemar Seyssel, vulgo Arrelia, com sua irreverência circense, revela-se um intérprete bastante apropriado para a divertida obra de Lamartine reunindo doze dos melhores temas, alguns cantados em dueto com o próprio compositor.

Sob a escrachada interpretação do palhaço, desfilam O TEU CABELO... e outras pérolas carnavalescas como MOLEQUE INDIGESTO, LINDA MORENA, HISTÓRIA DO BRASIL e A.E. I.O.U (parceria com Noel Rosa), além dos referidos temas juninos. Todas com o ilustre acompanhamento da histórica bandinha do mestre Altamiro Carrilho, já à época um dos flautistas mais requisitados pelos cantores do rádio.

Esse foi o único LP de Arrelia que no entanto gravou vários 78 rotações, o mais famoso em 1951, com a canção MUITO BEM ao lado do seu inseparável companheiro de picadeiro Pimentinha (seu sobrinho) que revelou o famoso bordão “Como vai? Como vai? Vai, vai, vai. Muito bem! Muito bem! Bem! Bem!” que se tornou sua marca registrada durante sua vida artística no saudoso Circo do Arrelia que por mais de 15 anos alegrou a petizada nas telas da TV Record.

Esse disco (obviamente não lançado em CD) pode ser com alguma sorte encontrado em sebos.

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Faixas:

01 – Ride Palhaço (Marcha) – Lamartine Babo

02 – Moleque Indigesto (Marcha) – Lamartine Babo

03 – Ahi, Hein !?…(Marcha) – Lamartine Babo e Paulo Valença

04 – História… Do Brasil (Marcha) – Lamartine Babo

05 – A…E…I…O…U… (Marcha) – Lamartine Babo e Noel Rosa

06 – Linda Morena (Marcha) – Lamartine Babo

07 – Só Dando Com Uma Pedra Nela… (Samba) – Lamartine Babo

08 – Isto É Lá Com Santo Antônio (Marcha – Canção) – Lamartine Babo

09 – Babo…Zeira… (Ranchera – Charge) – Lamartine Babo

10 – Chegou A Hora Da Fogueira (Marcha) – Lamartine Babo

11 – Boa Bola (Marcha) – Lamartine Babo e Paulo Valença

12 – Teu Cabelo Não Nega!… (Marcha) – Lamartine Babo e Irmãos Val



26 de jan. de 2021

BOCA LIVRE – BICICLETA (1980)

 

Despontando no fim dos anos 70, como grupo de apoio a nomes como Edu Lobo e Milton Nascimento, o Boca Livre não parecia ser fadado a prosperar num projeto próprio.

À época, as gravadoras investiam apenas em artistas consagrados e música de baixa qualidade com maior apelo comercial. Nesse contexto, a proposta de um conjunto vocal com repertório focado em música brasileira de primeira linha, um domínio sobre o qual o consagrado MPB-4 já marcara território, não parecia promissora.

Tanto que o desacreditado quarteto formado originalmente por Maurício Maestro, Zé Renato, Cláudio Nucci e David Tygel teve que bancar com recursos próprios seu primeiro vinil de 1979. O resultado foi surpreendente: mais de 100 mil cópias vendidas a partir da divulgação (com perdão da expressão) “boca a boca”. Um êxito absoluto nas circunstâncias.

O disco que contém as manjadíssimas TOADA e QUEM TEM A VIOLA (em que já se evidenciara a genialidade criativa da dupla Cláudio Nucci e Zé Renato) foi marco na história da produção cultural independente. Coroado pelo sucesso, o Boca seria mais tarde convidado a integrar o seleto elenco da Polygram.

Antes disso, porém (já sem a presença de Nucci, substituído por Lourenço Baeta), o Boca aventurou-se por uma segunda empreitada independente: o disco BICICLETA.

A faixa que nomeia o álbum, de autoria de Zé Renato, é uma obra prima instantânea, tornando-se a mais popular do disco. Surpreendente para uma canção sem palavras para cantarolar, interpretada em formato vocalise.

Curiosamente, 36 anos após, a canção recebeu uma letra de Cláudio Nucci, sendo lançada com essa nova roupagem nas plataformas digitais com o subtítulo de LIBERDADE E MOVIMENTO, assinada por Zé Renato e Nucci.

Apesar da louvável iniciativa, não foi páreo para a insuperável versão original, brindada com o belíssimo arranjo vocal que era justamente seu diferencial.  De fato, parece que os três minutos intercalados entre o preparatório “um, dois... um, dois, três, quatro” e o derradeiro retinir de uma prosaica campainha de bicicleta, prescindem do ornamento de palavras: é MÚSICA em estado puro.

Na capa, guiada por uma revoada de pássaros coloridos e tendo como pano de fundo um azulíssimo céu pincelado com brancas nuvens, corre solta uma magrela (simbolizando a liberdade e o prazer de viver), parecendo oferecer carona ao ouvinte para embarcar na garupa dessa viagem sonora.

O maravilhoso disco emplacou outras canções (AS MOÇAS, UM CANTO DE TRABALHO, NENÉM). Ainda assim, vendeu menos que o álbum inicial, embora seja, no mínimo, tão bom quanto. Sem falar na ilustre presença de ninguém menos do que Tom Jobim ao piano (nas canções CORRENTEZA e SACI), além de Naná Vasconcelos, Leo Gandelman, Nélson Ângelo, Novelli, Danilo Caymmi e Paulo Jobim.

Inacreditavelmente, nunca saiu em CD.

Esse mesmo time (Maestro, Zé Renato, Tygel e Baeta) manteve-se inalterado até 1992. Após um período de dissensões, substituições e retornos, essa formação clássica voltou a vigorar em 2006 perdurando por mais 15 anos.

Em 2021, o conjunto tristemente se dissolveu, com a saída coletiva de Zé Renato, Baeta e Tygel inconformados com as posições políticas de Maurício, detentor dos direitos do nome artístico do grupo.

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FAIXAS:

01 – Um Canto de Trabalho (Nelson Ângelo e Cacaso)

02 – As Moças (José Renato e Juca Filho)

03 – Correnteza  (Tom Jobim e Luis Bonfá)

04 – Neném (Maurício Maestro)

05 – Porto Seguro (David Tygel e Márcio Borges)

06 – Bicicleta (José Renato)

07 – Saci (Paulo Jobim e Ronaldo Bastos)

08 – Passarinho (Lourenço Baeta)

09 – Boi do Maranhão (Sérgio Habibe)

10 – Arado (Dalmo Medeiros)

11 – Nossa Dança (Danilo Caymmi e Ana Terra)



24 de jan. de 2021

GENIVAL LACERDA – AQUI TEM CATIMBERÊ (1975)

 

Não se sabe se ‘forró’ deriva de ‘forrobodó’ (festança) como dizem alguns etimólogos ou se é uma corruptela da expressão em inglês ‘for all’ como sustenta outra ala, em que se inclui, por exemplo, Geraldo Azevedo. O que é certo, no forró, é que, como diz a canção de Dominguinhos, ‘quem tá fora quer entrar mas quem tá dentro não sai”.

Controvérsias à parte, o forró é consensualmente uma autêntica manifestação cultural do Nordeste como a literatura de cordel, a capoeira e o acarajé, havendo inclusive uma iniciativa junto ao IPHAN para torná-lo patrimônio imaterial do Brasil.

Através de sua vertente ‘forró universitário’, conquistou a juventude dos grandes centros do Sudeste, com conjuntos de sucesso baseados no eixo SP/RJ como Falamansa, Rastapé, Bicho de Pé, Circuladô de Fulô, Trio Virgulino, Trio Forrozão, Forroçacana. A despeito das reservas dos puristas, esse movimento musical urbano, que teve seu auge nos anos 90, nunca deixou de se conectar aos grandes nomes tradicionais do forró e afins (xote, baião, xaxado, arrasta-pé).

Percebendo esse potencial, a indústria cultural criou mais recentemente uma versão estilizada, o ‘forró eletrônico’ ou ‘tecnobrega’ (apelidada por Chico César de ‘forró de plástico’). Grupos como Mastruz com Leite, Limão com Mel, Calcinha Preta, Aviões do Forró e Os Magníficos (curiosamente, todos sediados no Nordeste) arrastavam multidões a seus shows pirotécnicos cujas performances glamourizadas pouco lembram a coreografia singela do “forró pé de serra” de Luiz Gonzaga. A soberana sanfona foi destronada e substituída pelo órgão eletrônico e às imprescindíveis picardias foram adicionadas fúteis temáticas românticas.

Nesse universo, o som de Genival Lacerda soava extemporâneo, assim como suas apresentações, onde estavam presentes o indefectível chapéu coco, a roupa multicolorida e a maneira singular de se requebrar desengonçado no palco, carregando o barrigão saliente. Suas letras eram carregadas de deboche e ressaltavam a malícia e o duplo sentido. Devido a isso, alguns tachavam sua música de porno-xote, pecha que o artista, ofendido, rejeitava, alegando, por exemplo, jamais ter lançado mão de palavrões.

Conforme explica o músico Silvério Pessoa (da banda Cascabulho), “Genival fez parte de um clã que está em extinção, o forró ligeiro quebrado, dividido, lúdico.” Tendo como suporte o trio básico acordeon/zabumba/triângulo que caracteriza o forró de raiz, bebeu direto das fontes originais que moldaram seus álbuns iniciais quando ainda não dava tanto espaço para as brejeirices que viriam a marcar a segunda metade da sua carreira.

Enfim, um genuíno representante da primeira geração do forró que inclui nomes emblemáticos como Ary Lobo, Gordurinha, Marinês, Clemilda, Anastácia, Trio Nordestino e sobretudo os gigantes Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Em sua discografia, constam aliás um tributo a Jackson do Pandeiro (que era aliás seu concunhado) e outro em que revisa a obra de Luiz Gonzaga (participação de Fagner, Elba Ramalho e Chico César).

Embora tenha gravado mais de 70 álbuns, consagrou-se mesmo com a música SEVERINA XIQUE XIQUE (co-autoria com João Gonçalves) de 1975 com o famoso refrão “ele tá de olho na butique dela” que se tornou sua marca registrada e estendeu seu prestígio para todo o país. A canção ganhou releitura de uma pá de artistas de renome: Zeca Pagodinho, Marisa Monte, Nando Reis, Zeca Baleiro, MPB-4, Pato Fu.

A faixa puxou as vendas do álbum AQUI TEM CATIMBERÊ, selo Copacabana. Curioso que essa gravadora, sediada em São Paulo, embora tivesse em seu elenco muitos intérpretes populares, não era especializada em música nordestina e resistiu em bancar o projeto de Genival, cujo lançamento acabaria por lhe render 800 mil cópias vendidas.

O álbum NÃO DESPREZE O SEU COROA (1979) denota outro ponto alto na carreira do artista paraibano. Com arranjos de Sivuca e a presença de Dominguinhos, esse disco traz os hits ROCK DO JEGUE (referenciado em uma faixa do único disco dos Mamonas Assassinas) e RADINHO DE PILHA (regravada pelo grupo Camisa de Vênus).

Descontando suas capas de gosto duvidoso em que aparece ao lado de mulheres de biquíni, e as letras com tom machista (“tem mulher que só aprende quando o coro desce” in RADINHO DE PILHA), que retratam os preconceitos e os valores de grande parte do seu público, Genival é um exímio cronista de costumes que carrega o espírito original do forró voltado ao indivíduo das classes menos favorecidas e aos contratempos dos imigrantes, amenizados com humor.

Como diz Marcelo D2: “(ele) faz lembrar a alegria do Brasil, me conecta com meus antepassados e traz uma sensação boa de felicidade”.

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Faixas:

1- Severina Xique-Xique (João Gonçalves/Genival Lacerda)

2- A Filha de Mané Bento (João Gonçalves/Genival Lacerda)

3- Deixem Ela Sofrer (Joca de Castro/Genival Lacerda)

4- Bahia do Catimberê (Haroldo Francisco/Orlando Deco)

5- Benzinho (Brito Lucena)

6- Ela É do Contra (Durval Vieira)

7- Para Papagaio (Antônio Barros)

8- Meu Barco Afundou (Luis Boquinha)

9- Leão de Cafieira (Severino Ramos)

10- Vamos Brincar de Roda (João Gonçalves/Genival Lacerda)

11- Morena Faceira (Brito Lucena)

12- Tenente Bezerra (Gordurinha)

OS BORGES (1980)

Embora o jornalista mineiro Salomão Borges não tivesse se dedicado à música, era por ela um aficionado. Isso explica a paixão de 7 dos seus 11 filhos pela arte. Aquele que herdou o nome do pai, Salomão Borges Filho, o 6º da linhagem, mais conhecido como Lô Borges, tornou-se o mais famoso da prole. É co-responsável por aquele que é unanimemente considerado um dos principais álbuns da história da MPB, o antológico CLUBE DA ESQUINA de 1972 ao lado de Milton Nascimento, além de ter uma carreira solo bem sucedida sintetizada em quase 20 álbuns.

O primeiro deles, o famoso “disco do tênis” saiu no mesmo ano, 1972, seguido de VIA LÁCTEA de 1979 e SONHO REAL de 1981. Entre esses dois últimos, OS BORGES que, embora costume aparecer na discografia de Lô, não deveria, por justiça, ser exclusivamente a ele creditado. O cantor e compositor mineiro, já consagrado, participa interpretando apenas duas músicas, procurando dar espaço para que seus irmãos revelassem seus dotes.

Sob a batuta do velho Salomão e de Dona Maricota, progenitora da clã (que para não destoar da moçada, era pianista), desfilam os brothers Márcio, Yê, Marilton, Nico, Telo e Solange Borges (única representante do sexo feminino). Destaque para Márcio Borges, outro que se projetara como compositor e letrista em célebres parcerias com a trupe do Clube da Esquina.

OS BORGES foi um projeto despojado de Lô com a intenção de registrar em vinil o ambiente cultural reinante em seu apartamento em Belo Horizonte. A capa que traz uma foto do quarto dos “meninos”, revela esse clima com pôsteres e instrumentos espalhados pelo chão. Retratos dos 4 Beatles no canto superior não escondem uma das principais influências.  

A faixa de abertura “Em Família” (Márcio e Yê) interpretada por todos traduz a empatia entre irmãos afins (“Na minha casa tem mulher que briga, na minha casa tem homem que chora”).

A atmosfera caseira do projeto oculta algumas participações inacreditáveis. Em “Carona”, ao lado de Marilton, a presença de um tal de Gonzaguinha. Na faixa derradeira, “Pros Meninos”, ao lado de Nico, comparece Milton Nascimento. Em “Outro Cais” a canja especial é de ninguém menos do que Elis Regina (a própria).

Destacam-se “Ainda” e a gravação original de “Voa Bicho”, ambas de Telo e Márcio, com orquestração de Guilherme Arantes. Essa última ficou mais conhecida ao ser regravada por Milton Nascimento e Maria Rita no disco Pietá de 2003.  

A galeria de fotos que encarta o LP revela que as sessões de gravações contaram com outros bambas: Toninho Horta, Naná Vasconcelos, César Camargo Mariano, Nivaldo Ornelas, Marçal, Fredera...

O vinil dessa obra prima era disputadíssimo, até que a EMI/Odeon dignou-se em lançá-lo em CD em 2002. A má notícia é que quem quiser adquiri-lo vai ter de desembolsar uma pequena fortuna pois está fora de catálogo e, assim como o LP, é raro.

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Faixas:

1. "Em Família" (Márcio Borges, Yé Borges) - Os Borges 4:08

2. "Carona" (Marilton Borges)  Marilton Borges (Partic: Gonzaguinha) 2:53

3. "Voa, Bicho" (Márcio Borges, Telo Borges) - Telo Borges/Solange Borges 3:50

4. "Um Sonho Na Correnteza" (Márcio Borges, Yé Borges) Solange Borges/Yé Borges 3:08

5. "Ainda" (Márcio Borges, Telo Borges)- Telo Borges/Marilton Borges 3:29

6. "O Sapo" (Tradicional) - Os Borges 2:20

7. "Eu Sou Como Você É" (Lô Borges) - Lô Borges/Marilton Borges 3:41

8. "Outro Cais" (Duca Leal, Marilton Borges) - Elis Regina 2:03

9. "No Tom De Sempre" (Márcio Borges , Chico Lessa) - Chico Lessa/Lô Borges 3:57

10. "Qualquer Caminho" (Márcio Borges) - Márcio Borges/Marilton Borges 3:17

11. "Daniel" (Nico Borges, Solange Borges) - Solange Borges 3:17

12. "Pros Meninos" (Duca Leal, Nico Borges) - Nico Borges/Milton Nascimento 4:38

 

16 de dez. de 2020

ROUPA NOVA (1981)

 

Quem avalia a carreira do Roupa Nova por seus inúmeros hits radiofônicos e canções românticas noveleiras, de apelo popular, talvez não imagine que o grupo também se sobressai no quesito qualidade (com músicos habilidosos e um competente trabalho vocal). E tem pedigree: nasceu apadrinhado por ninguém menos do que Milton Nascimento, admirador de primeira hora, que aliás ajudou a batizar o grupo com o título de uma de suas canções.

O RN deixou ainda sua marca com o inestimável apoio conferido a duas pérolas da nossa música: AÇAÍ (de Djavan) com Gal Costa e NOS BAILES DA VIDA (Milton e Fernando Brant) com Milton Nascimento, presentes respectivamente nos álbuns FANTASIA (Gal) e CAÇADOR DE MIM (Milton), ambos de 1981. Nesse último caso, a participação do conjunto consigna o prestígio aos bailes noturnos que, a exemplo do que ocorreu com Milton, propiciaram ao sexteto carioca a oportunidade de lançar-se na carreira artística.

Essa ligação visceral com Milton, acrescentada ao fato de o RN sempre prestigiou o pessoal do Clube da Esquina fez com que se presumisse que o grupo fosse mineiro (a exemplo de outra banda bancada por Milton, o 14 Bis, com quem guardava no início certa semelhança vocal). Na verdade, dois integrantes são mineiros, os demais, cariocas.

O RN nasceu ao que parece com a proposta de assumir-se como representante do autêntico rock’n’roll brazuca, tanto que seu primeiro single foi HOJE AINDA É DIA DE ROCK de Zé Rodrix, quando ainda se chamavam The Famks. Essa formação embrionária trazia 4 dos 6 membros originais do RN (o tecladista Cléberson, o baixista Nando, o guitarrista Kiko e o cantor Paulinho). Com a agregação do guitarrista Feghali e do baterista Serginho, nascia o Roupa Nova que conservou essa mesma formação exitosa por nada menos do que quatro décadas, até que a COVID 19 levasse Paulinho em 2020.

O primeiro álbum como Roupa Nova, o de 1981, tem a marca do produtor Mariozinho Rocha, responsável por alguns dos grandes momentos da MPB, inclusive do Clube da Esquina.

A sonoridade ‘soft’ do grupo valeu-lhe a comparação com grupos internacionais como o Toto ou o Journey, o que sempre é discutível.

Esse trabalho marca o ingresso na poderosa Polygram, gravadora que bancou também os dois álbuns seguintes (a exemplo do primeiro, nomeados simplesmente ROUPA NOVA) que sinaliza a consolidação do prestígio e do sucesso comercial.

Enquanto o segundo álbum conserva o estilo anterior, o terceiro marca uma mudança de repertório, com maior presença de baladas românticas.

O quarto disco que assinala a passagem para a RCA traz o mega-sucesso WHISKY A GO GO (da dupla Sullivan/Massadas), tema que se perpetuou como preferido por 10 em cada 10 festinhas de confraternização.

A partir daí, o grupo foi derivando progressivamente para uma linha mais popular, tornando-se campeão de participações em trilhas de novela o que ajudou a alavancar o sucesso. Contabilizam-se mais de 30 canções inseridas em novelas, traduzidas em vendas mais robustas. O quinto álbum chegou a atingir espantosos 2,2 milhões de cópias.

Com isso, o RN abocanhou um público bem mais amplo e diverso. Deixando os preconceitos de lado, dividiu o palco com campeões de público de todos os gêneros como Roberto Carlos, Ivete Sangalo, Cláudia Leitte, Rita Lee, Ney Matogrosso, Anita afora uma legião de sertanejos e padres cantores. Na outra ponta, firmou parcerias com nomes respeitáveis do cenário internacional como David Coverdale (Deep Purple/Whitesnake), Steve Hackett (Genesis), David Gates (Bread) e com os Commodores, lendários representantes da soul music.

Convivendo com uma linha mais brega, o RN sempre pontuava seu trabalho em resgatar temas emblemáticos do cancioneiro nacional. Os álbuns DE VOLTA AO COMEÇO (1993) e OURO DE MINAS (2000) foram dedicados respectivamente a reviver clássicos da MPB (Gonzaguinha, Chico Buarque, Sérgio Sampaio, Taiguara, Zé Rodrix, Os Mutantes, O Terço) e à nata dos compositores mineiros ou a eles próximos (Milton, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Beto Guedes, Flávio Venturini, Lô Borges, João Bosco, Samuel Rosa).

Em meio a tanto ecletismo, fica a constatação de que o álbum de 1981 permanece como a mais honesta referência do grupo.

Além da citada canção de Milton (que nomeou o grupo), o disco traz os dois primeiros hits: CANÇÃO DE VERÃO (Luiz Guedes e Thomas Roth) e SAPATO VELHO (Mú, Paulinho Tapajós e Claudio Nucci), certamente um dos mais belos marcos da música brasileira de todos os tempos. O álbum traz ainda composições de Feghali, algumas em parceria com compositores consagrados (Fausto Nilo, Márcio Borges).

 O visual despojado e as densas cabeleiras exibidas denotam que os músicos tinham de início uma pegada bem diversa daquela que as circunstâncias fizeram-nos adotar posteriormente.

Frente aos mirabolantes números que o grupo ostenta em seu currículo, o humilde álbum de 1981 com suas modestas vendas de 15 mil cópias traduz com perfeição o que dizem as palavras de SAPATO VELHO: “Você lembra, lembra daquele tempo, eu tinha estrelas nos olhos, um jeito de herói, era mais forte e veloz que qualquer mocinho de cowboy (...) Talvez eu seja simplesmente como um sapato velho mas ainda sirvo se você quiser, basta você me calçar que eu aqueço o frio dos seus pés”.

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Faixas:

1. "Sapato Velho" (Mú / Paulinho Tapajós / Cláudio Nucci) - 4:05

2. "Pra Sempre" (Flávio Venturini / Ana Terra) - 3:12

3. "Bem Simples" (Ricardo Feghali / Mariozinho Rocha) - 2:48

4. "Um Pouco de Amor" (Thomas Roth / Luiz Guedes) - 2:21

5. "E o Espetáculo Continua" (Tavynho Bonfá / Ivan Wrigg) - 3:21

6. "Recomeçar" (Eládio Sandoval / Jamil Joanes) - 2:38

7. "Tanto Faz" (Ricardo Feghali / Fausto Nilo) - 2:47

8. "Canção de Verão" (Thomas Roth / Luiz Guedes) - 2:51

9. "Quem Virá" (Ricardo Feghali / Márcio Borges) - 2:50

10. "Roupa Nova" (Milton Nascimento / Fernando Brant) - 3:18

 

VANUSA (1973)

 

Vanusa tornou-se mais conhecida pela cor de seus cabelos do que pelos dotes artísticos, estigmatizada como uma intérprete ‘menor’ ligada à Jovem Guarda. Nada mais equivocado: de sua discografia de quase 20 álbuns, o único que pode ser creditado a esse gênero é o primeiro, puxado pelo hit PRA NUNCA MAIS CHORAR de Eduardo Araújo e Carlos Imperial.

Não bastasse isso, amargou em 2009 um infeliz episódio de ter se atrapalhado na interpretação do Hino Nacional numa solenidade oficial, cujo vídeo viralizou, tornando-a motivo de chacota, o que a deixou profundamente abalada. A circunstância de que estava sob efeitos de medicamentos para a labirintite não atenuou o linchamento perpetrado nas redes sociais.

Vanusa tornou-se reclusa e amargurada com o acontecimento. Até que, aos 67 anos, após quase 20 anos de ostracismo fonográfico, já com a saúde debilitada, foi convidada pelo incansável músico e agitador cultural Zeca Baleiro para gravar o álbum VANUSA SANTOS FLORES pelo selo Saravá, por ele produzido, com um repertório de primeira, que viria a ser o último de sua carreira.

A exposição da cantora ao menos serviu para despertar o interesse das novas gerações que sequer a conheciam. Em parte, isso motivou o relançamento, em 2015, de dois boxes contendo seus 8 primeiros álbuns, a nata de sua produção, pelo selo Discobertas, acompanhados de faixas bônus, num louvável trabalho de resgate.

Uma audição honesta desses álbuns revela momentos primorosos.  O segundo álbum (1969) já evidencia que a loiríssima estava preocupada em alçar voos bem mais altos do que sugeriam os passos iniciais. Com o recente revival dos álbuns psicodélicos, esse surpreendente disco (a começar pela belíssima e ousada capa) é referenciado como uma das pérolas do gênero, sobretudo a faixa ATÔMICO PLATÔNICO (com ares tropicalistas).

Os trabalhos seguintes demonstraram que Vanusa queria ampliar o leque, abraçando o soul e posteriormente a MPB, sem abandonar os temas populares românticos.

AMIGOS NOVOS E ANTIGOS, o sexto álbum, de 1975, é tido por alguns críticos como o mais arrojado, com um repertório calcado em grandes nomes da MPB como Milton Nascimento/Fernando Brant, João Bosco/Aldir Blanc, Luiz Melodia, Carlinhos Vergueiro e Fagner (numa inusitada parceria com Antonio Marcos), trazendo ainda sua consagradora versão para o clássico PARALELAS de Belchior.

No álbum de 1977, TRINTA ANOS, entre outras pérolas, uma inédita de Caetano Veloso, DUAS MANHÃS, e outra do estreante Zé Ramalho, AVÔHAI, canção que viria a consagrar o músico paraibano no seu primeiro álbum individual, no ano seguinte.

O quarto disco de 1973 (que marcou sua passagem da RCA para a Continental), nomeado apenas de VANUSA (a exemplo dos outros 4 iniciais), talvez tenha sido o mais eclético, indo do samba ao rock (há até uma canção infantil, O MAGO DE PORNÓIS), sem no entanto perder a integridade. O destaque é a faixa de abertura, MANHÃS DE SETEMBRO (composição própria em parceria com Mário Campanha), tido por alguns como uma das mais belas peças da MPB. O álbum foi produzido por Lincoln Olivetti e Zé Rodrix, que assinou duas faixas, RETRATO NA PAREDE e COISAS PEQUENAS, essa última parceria com Tavito.

A versão remasterizada traz duas faixas bônus, uma em dueto com Antônio Marcos (parceiro e primeiro marido) e outra, o tema de abertura do Programa Fantástico da Rede Globo (de Guto Graça Mello e Boni), originalmente por ela interpretado.

A maior curiosidade do disco, no entanto, é o rock WHAT TO DO?, cantado em inglês que se tornou conhecidíssimo pelo fato de o  riff de guitarra guardar uma impressionante semelhança com o clássico Sabbath Bloody Sabbath do álbum homônimo do grupo heavy Black Sabbath. Para quem imaginou tratar-se de plágio, uma informação: a canção de Vanusa foi lançada 5 meses antes do disco do grupo inglês. Indagada a respeito, a pacífica Vanusa afirmou sentir-se lisonjeada pela repercussão do caso e deixou a questão pra lá. Mera coincidência, justificou.

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Faixas:

1. Manhãs de Setembro (Mário Campanha - Vanusa)

2. Você não Morreu (Portinho - Antônio Marcos)

3. O Mago de Pornois (Massadas)

4. Quebra Cabeça (William Acquisti)

5. Neste mesmo Lugar (Armando Cavalcanti - Klécius Caldas)

6. What to Do (Papi - Alf Soares)

7. Estou Fazendo Hora (Mário Marcos - Antônio Marcos)

8. Coisas Pequenas (Tavito - Zé Rodrix)

9. Quero Você (Mário Campanha - Vanusa)

10. Retrato na Parede (Zé Rodrix)

11. Mercado Modelo (Jocafi - Antônio Carlos - Ildázio Tavares)

12. Entre Cinzas (Papi - Carlos Cou)



TAVITO (1979)

 

Tavito é indevidamente acusado de ter sido acometido pela maldição da música única. “Rua Ramalhete” tornou-se, é fato, emblemática na carreira do músico e integrante obrigatória do cancioneiro popular, a ponto de ter sido designada como hino oficial de Belo Horizonte. Todavia reduzir a obra do compositor e cantor mineiro a essa canção é uma inverdade absoluta.

Tavito tem uma importância para a MPB que transcende o alcance de versos como “vou falar no seu ouvido coisas que vão fazer você tremer dentro do vestido... e o som dos Beatles na vitrola”. Teve participação em dois momentos essenciais da nossa música. Foi sócio fundador do Clube da Esquina, movimento seminal surgido em Minas, capitaneado por Milton Nascimento que agregou à MPB elementos do jazz e do rock, universalizando-a e conferindo-lhe um sopro de modernidade e excelência. E foi um dos integrantes do memorável Som Imaginário, unanimemente reconhecido com um dos mais importantes conjuntos de música instrumental de todos os tempos.

Alguns anos após a dissolução do grupo, Tavito iniciou sua carreira solo com 3 álbuns consecutivos no período 1979/1982.

O primeiro, o de 1979, foi certamente o mais bem sucedido, não apenas comercialmente, mas por sua produção esmerada. Além de “Rua Ramalhete” (parceria com Ney Azambuja), continha outro mega-sucesso, “Casa de Campo” (parceria com Zé Rodrix), imortalizado pela interpretação de Elis em seu álbum de 1972. E pelo menos mais duas músicas manjadíssimas: “Começo, Meio e Fim” (mais conhecida na interpretação do Roupa Nova) e “Naquele Tempo” (outra saudosista homenagem aos Beatles).

Contou com a participação das cantoras Jane Duboc e Regininha e um respeitável plantel de instrumentistas: Alex Malheiros (Azymuth) e Jamil Joanes no baixo, Márcio Montarroyos no trompete, Paulinho Braga na bateria, Gilson Peranzetta no piano, Sérgio Dias (Mutantes) na guitarra e orquestração de Eduardo Souto Neto. Com tantos atributos, esse disco, ao ser tirado prematuramente de catálogo pela CBS, passou a ser disputadíssimo nos sebos. Incompreensível que só tenha sido lançado em CD por iniciativa da pequena gravadora Savalla, rapidamente se esgotando.

Tavito ainda lançou mais dois álbuns solos. Depois, recolheu-se passando a se dedicar a uma bem sucedida carreira de composição de jingles, o mais famoso dos quais se tornou o hino extra-oficial da conquista do tetra pela seleção, parceria com Aldir Blanc. Aliás, a maior parte de suas composições, foi fruto de colaborações notáveis como com os irmãos Valle, Ivan Lins, Ruy Maurity, Sá e Guarabyra, Renato Teixeira etc. Retomou a produção fonográfica após um intervalo de 27 anos, lançando 2 álbuns pelo selo Tratore, o último em 2014, cinco anos antes do seu falecimento, sem conseguir se desvencilhar da síndrome “Rua Ramalhete”.

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FAIXAS:

1. Cowboy (Eduardo Souto Neto, Paulo Sérgio Valle)

2. Rua Ramalhete (Ney Azambuja, Tavito)

3. Você me Acende (Erasmo Carlos)

4. Longe do Medo (Ivan Lins, Tavito)

5. Cravo e Canela (Milton Nascimento, Ronaldo Bastos)

6. Naquele Tempo (Mariozinho Rocha, Renato Correa)

7. Começo, Meio e Fim  (Ney Azambuja, Paulo Sergio Valle, Tavito)

8. A Ilha (Sá & Guarabyra)

9. Coração Remoçado (Eduardo Souto Neto)

10. Casa no Campo (Tavito, Zé Rodrix)



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