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12 de dez. de 2020

CLEMENTINA DE JESUS - CLEMENTINA E CONVIDADOS (1979)

 


Ao gravar este disco, Clementina tinha por volta de 78 anos (não se sabe a data exata de seu nascimento). Não tão tardiamente já que sua carreira começara apenas aos 64, ocasião em que o poeta e produtor cultural Hermínio Bello de Carvalho “descobriu-a” trabalhando como doméstica e fez com que ela tivesse sua participação artística inaugural no disco ROSA DE OURO.

O primeiro álbum solo saiu em 1966 pela Odeon. CLEMENTINA E CONVIDADOS foi o quinto e último de sua breve carreira. Reuniu duetos com grandes nomes do samba (Clara Nunes, Dona Yvonne Lara, Martinho da Vila, João Bosco, Adoniran Barbosa, Carlinhos Vergueiro, Roberto Ribeiro e Cristina Buarque).

Consta no encarte do LP depoimento sobre as dificuldades técnicas para realização do projeto. Clementina mal conseguia enxergar as letras e memorizar as canções. Mas na hora de soltar seu inconfundível vozeirão, não deixava dúvidas sobre sua soberania.

Por não obedecer aos padrões estéticos tradicionais, a ‘Rainha Quelé’ jamais figurou nos círculos ‘chiques’ da MPB, ainda que tivesse sido reverenciada por Milton Nascimento na música “Raça”, com ela gravando “Escravos do Jó” em versão mutilada pela censura (recuperada sem cortes por Elis Regina como “Caxangá”) e “Circo Marimbondo”. E por Caetano Veloso que produziu seu álbum MARINHEIRO SÓ em que Clementina consagrou a definitiva versão de sua adaptação para a canção de mesmo nome.

Desprovida de técnicas vocais, sua interpretação grave e visceral está eivada da ancestralidade dos cantos e rezas dos escravos herdados da mãe lavadeira que nos remetem às bases africanas da cultura negra que originaram o samba. As mesmas que formaram o valorizado blues externado pelas vozes femininas de Bessie Smith ou Alberta Hunter, expressões equivalentes para a música norte-americana que tanto enaltece suas raízes.

O repertório do disco traz pérolas do samba como “Sonho Meu” (Délcio Carvalho/Yvonne Lara), “Torresmo á Milanesa” (Adoniran/Vergueiro), “Tantas Você Fez” (Candeia), “Boca de Sapo” (Bosco/Blanc), “Embala Eu” (Albaléria),  “Assim não Zambi” (Martinho da Vila), “Na Hora da Sede” (Braguinha/Luiz Américo).

A aclamada capa é um dos mais conhecidos trabalhos de Elifas Andreato que também fez a bela ilustração do encarte do LP. Segundo relata o artista gráfico, a gravadora levantou dúvidas sobre se a sambista entenderia a gravura. Consultada, porém, ela só reclamou que a pegada na areia não fosse do seu próprio pé.

Clementina morreu 8 anos após. Levou com ela a inestimável riqueza cultural que trazia em sua memória musical.

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Faixas:

1. Tantas Você Fez (Candeia) - participação Cristina Buarque

2.  Embala Eu (Albaléria) - participação Clara Nunes

3. Cocorocó (Paulo da Portela) – participação Roberto Ribeiro

4. Olhos Da Azeviche (Jaguarão)

5. Boca De Sapo (Aldir Blanc, João Bosco) – participação João Bosco

6. Laçador (Cantoni, Clementina De Jesus)

7. Assim Não Zambi (Martinho Da Vila) – participação Martinho Da Vila

8. Na Hora Da Sede (Braguinha, Luis Américo)

9. Sonho Meu (Delcio Carvalho, Yvone Lara) – participação Yvone Lara

10. Torresmo A Milanesa (Adoniran Barbosa, Carlinhos Vergueiro) – participação Adoniran Barbosa & Carlinhos Vergueiro

11. Caxinguelê Das Crianças (José Ventura)

12. Papel Reclame (Nelson Sargento)



PATIFE BAND (1985)

 


À sombra de Arrigo Barnabé que, a partir do icônico CLARA CROCODILO (1980), alcançou prestígio nos circuitos alternativos e aclamação da crítica, seu irmão Paulo, igualmente paranaense de Londrina e estabelecido em SP, mereceria melhor sorte pois tem estilo e luz próprios. Sua trajetória musical (associada ao movimento conhecido como ‘vanguarda paulistana’), embora tenha seguido próxima à de Arrigo, teve suas particularidades. Ao contrário do brother mais velho, Paulo Barnabé expressou sua música através do seu alter-ego, a Patife Band, formada em 1983, ao lado, dentre outros, de Duda Neves na batera e Tavinho Fialho no baixo.

O conjunto passou por inúmeras formações, sempre capitaneado por Paulo. Lançou apenas dois álbuns em que, embora tivesse em comum a atonalidade e o dodecafonismo, peculiaridades de Arrigo, apresentava uma estética mais “hardcore”.

Acabou cativando outro tipo de público, mais roqueiro, embora se diferenciasse do estilo caracterizado pela ausência de técnica e acordes básicos, apresentando um som mais experimental e rebuscado, influenciado pelas peças eruditas contemporâneas de Stockhausen.

Esse primeiro LP (na verdade, um EP) saiu pelo histórico selo Lira Paulistana traz apenas 6 faixas em 13 minutos de duração. O álbum, ainda que distribuído de forma totalmente independente, com produção modesta e parcos recursos, teve boa aceitação, mirando um público que valoriza a crueza dos arranjos. Rapidamente se esgotou nunca tendo sido lançado em CD e hoje vale uma fortuna. Dentre as pérolas, os ‘hits’ “Tô Tenso”, parceria com Arrigo e Itamar, que chegou a ser gravado até pelos Ratos de Porão no álbum de covers FEIJOADA ACIDENTE? e “Pregador Maldito”, presente também na trilha do filme Cidade Oculta. Dentre os deboches (marca registrada do grupo), versões punks para o breguíssimo sucesso da jovem guarda “Tijolinho” (“você é meu tijolinho, você é meu tijolão”) de Bobby de Carlo e o clássico natalino “Noite Feliz”. O diferencial fica por conta da arrojada instrumental “Peiote”.

O segundo trabalho, CORREDOR POLONÊS (1987) conservou características sonoras semelhantes. Três das seis músicas do EP foram reaproveitadas. Bancado pela ‘major’ Warner que, mesmo dispondo um plantel estrelar, com nomes como Titãs, Ira!, Barão e Kid Abelha que viviam sua fase áurea, apostou no grupo, conferindo-lhe uma produção mais requintada, com o suporte de bambas como Bocato, Toninho Ferragutti e Papete. Destaque para a faixa “Teu Bem”, que seria regravada por Cássia Eller. O toque nonsense fica por conta de “Chapeuzinho Vermelho”, clássico dos Jet Blacks. Chegou a ser lançado, numa edição restrita, em CD, também esgotada.

Após isso, a Patife Band deu uma guinada, passando a flertar com o jazz vanguardista trazendo expoentes dessa vertente como Zé Eduardo Nazário e Felipe Ávila e depois saiu de cena. Não totalmente, já que volta e meia reagrupa-se para shows atendendo aos pedidos dos antigos fãs, ávidos pela execução do repertório dos dois discos.

Foi reunido material para um álbum ao vivo, mas o projeto não vingou.

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FAIXAS:

1. "Tijolinho" (Wagner Benatti) 2:10

2. "Pregador Maldito" (Paulo Barnabé) 2:05

3. "Pesadelo" (Arrigo Barnabé, Paulo Barnabé) 1:00

4. "Tô Tenso" (Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Paulo Barnabé) 2:53

5. "Noite Feliz" (Franz Xaver Gruber) 2:03

6. "Peiote" (Instrumental) 2:50



9 de dez. de 2020

PAULINHO DA VIOLA E ELTON MEDEIROS – SAMBA NA MADRUGADA (1968)

 


Como pôde um álbum gravado numa única noite (madrugada) ter-se tornado uma lenda? Uma série de fatores concorre para que SAMBA NA MADRUGADA tenha adquirido o status de obra prima. Antes de tudo, o fato de ter sido a primeira vez que esses dois celebrados sambistas tiveram um trabalho fonográfico a eles creditado. Em segundo lugar, por tratar-se do único registro que se tem notícia em que esses artistas tão afins aparecem dividindo um disco (excluindo-se ocasiões em que comparecem ao lado de outros nomes). E, por fim, é claro, o fino repertório escolhido.

Não se pode deixar de assinalar também o invejável plantel de instrumentistas que contribuíram para o sucesso da empreitada. Foram reunidos nessa sessão noturna de samba cobras como Marçal na percussão, Copinha na flauta, Dino 7 Cordas no violão, Raul de Barros no trombone, Canhoto da Paraíba no cavaquinho, além dos titulares Paulinho da Viola, no violão, e Elton Medeiros, aplicando o “instrumento” em que é virtuose: a caixa de fósforos.

Sem dúvida, tudo isso contribuiu para que essa obra, gravada a toque de caixa (de fósforos) tenha se tornado tão cultuada. Aquela que proporciona o privilégio de apreciar a elegância, a poesia e a excelência de dois dos mais dignos nomes do samba de raiz partilhando seu talento.

O repertório é todo da dupla, parte dele em parceria com um time pra ninguém botar defeito: Cartola, Zé Keti, Candeia, Casquinha, Mauro Duarte e Hermínio Bello de Carvalho (de quem é o texto de apresentação da contracapa).

Em 10 das 11 faixas, os dois sambistas revezam-se na vocalização (5 com Elton, 4 com Paulinho e uma em que dividem). Mas o ponto alto é um ‘medley ‘ de 7 minutos com uma sequência de pequenos trechos de momentos marcantes da carreira de ambos como “Recado” de Paulinho (registrada anteriormente no álbum RODA DE SAMBA 2). De Elton, uma parceria com Cartola, “O Sol Nascerá” (“a sorrir, eu pretendo levar a vida, pois chorando eu vi a mocidade perdida”), uma das mais lindas peças do nosso cancioneiro. Essa música já ganhara evidência ao ser incluída no álbum de estreia de Nara Leão (1964) mas alcançou ainda mais notoriedade a partir da interpretação conferida pelo próprio Cartola em seu álbum de estreia de 1974.

No seu disco seguinte de 1976, Cartola daria voz à outra conhecida parceria entre eles, “Peito Vazio”, que Elton gravaria apenas em seu álbum solo de 1980, pela Eldorado.

SAMBA NA MADRUGADA foi gerado em 1966 com o abreviado título de NA MADRUGADA. Mas tornou-se definitivamente um clássico após seu relançamento em 1968, quando ganhou o nome estendido pelo qual é hoje conhecido, alavancado pelo concomitante lançamento do primeiro álbum solo de Paulinho da Viola pela Odeon.

Elton, apesar de 13 anos mais velho, só viria a ser agraciado com um disco solo 5 anos mais tarde. Suas composições foram todavia eternizadas na voz de outros intérpretes (como Isaura Garcia, Elizeth, Elis, Nara, Elza, Alaíde Costa, Clara Nunes, Beth Carvalho, Teresa Cristina, Zélia Duncan, Cida Moreira, Fabiana Cozza, para ficar só campo feminino).

A despeito da diferença de idade, Elton vinha acompanhando de perto a carreira de Paulinho desde que captou o talento do franzino rapazote de 20 e poucos anos, com ele integrando os históricos conjuntos A Voz do Morro e Os Cinco Crioulos.

Apesar de sua importância, essa obra emblemática esteve próxima a ficar mofando nos arquivos da gravadora.  Lançada originalmente pela RGE, cujo arquivo foi incorporado ao da Som Livre, foi mantida em catálogo apenas até 2001. Só em 2015, graças à iniciativa da gravadora Kuarup, um dos baluartes da música popular de qualidade, foi novamente disponibilizada ao público em CD. Mais recentemente, foi também objeto de lançamento em vinil 180 gramas pela Polysom na série “Clássicos do Vinil”.

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Faixas:

1) Arvoredo (Paulinho da Viola) - Paulinho da Viola

2) Maioria sem nenhum (Elton Medeiros/Mauro Duarte) - Elton Medeiros

3) 14 anos (Paulinho da Viola) - Paulinho da Viola

4) Sofreguidão (Elton Medeiros/Cartola) - Elton Medeiros

5) Momento de fraqueza (Paulinho da Viola) - Paulinho da Viola

6) Minha confissão (Elton Medeiros) - Elton Medeiros

7) Perfeito amor (Elton Medeiros/Hermínio Bello de Carvalho) - Elton Medeiros

8) Mascarada (Elton Medeiros/Zé Kéti) - Elton Medeiros/ Minhas madrugadas (Paulinho da Viola/Candeia) - Paulinho da Viola/ Injúria (Elton Medeiros/Cartola) - Elton Medeiros/ Recado (Paulinho da Viola/Casquinha) - Paulinho da Viola/ O sol nascerá (Elton Medeiros/Cartola) - Elton Medeiros/ Jurar com lágrimas (Paulinho da Viola) - Paulinho da Viola/ Rosa de ouro (Elton Medeiros/Paulinho da Viola/Hermínio Bello de Carvalho) - Elton Medeiros e Paulinho da Viola

9) Depois de tanto amor (Paulinho da Viola) - Paulinho da Viola

10) Samba original (Elton Medeiros/Zé Kéti) - Elton Medeiros

11) Alô alô (Paulinho da Viola) - Paulinho da Viola/ Sol da manhã (Elton Medeiros) - Elton Medeiros



MIÚCHA E ANTÔNIO CARLOS JOBIM (1977)

 


Tom Jobim sempre se sobressaiu mais por suas composições mundialmente conhecidas do que por suas interpretações. Embalado, no entanto, pelo sucesso do álbum Elis e Tom (considerado um dos marcos mais importantes da história da MPB), Tom encampou o projeto de gravar um disco com a irmã de Chico Buarque (também ex-esposa de João Gilberto) que um ano antes já fizera a vocalização da faixa “Boto” (“Inda ontem vim de lá do Pilar”) do clássico URUBU.

Chico não apenas deu sua bênção ao histórico encontro como se envolveu ativamente na iniciativa cravando três memoráveis participações: “Vai Levando” (uma das raras parcerias de Chico com Caetano), que catapultou o sucesso comercial do LP, tendo sido tema de abertura da novela global Espelho Mágico; “Pela Luz dos Teus Olhos”, composição de Vinícius de Moraes consagrada definitivamente pela irretocável versão a ela conferida; e “Maninha”, uma das mais lindas canções de Chico Buarque, feita especialmente para sua maninha.

Nem precisaria de mais nada, mas o álbum traz mais nove pérolas, apenas duas de Tom (a consagrada “Samba do Avião” e “É Preciso Dizer Adeus”, uma das menos conhecidas parcerias com Vinícius). Ao contrário do que se podia esperar, são compiladas canções que fogem da obviedade da bossa nova que consagrou o maestro carioca, privilegiando um repertório eclético onde desfilam desde clássicos do samba canção (Ary Barroso, Custódio Mesquita) até compositores mais recentes (Márcio Borges, Geraldo Carneiro).

Além do piano de Jobim, aparecem Robertinho Silva, Wilson das Neves e Rubinho na bateria, Luiz Eça e Novelli no baixo, Danilo Caymmi na flauta e Dori Caymmi no violão.

A divulgação do álbum num show memorável no Canecão com a participação de Vinícius e Toquinho gerou no mesmo ano, curiosamente, um outro clássico da MPB, o álbum TOM, VINÍCIUS, TOQUINHO E MIÚCHA GRAVADO AO VIVO NO CANECÃO.

Embalado pelo sucesso do empreendimento, a dupla chegou a gravar outro belo disco em 1979 mas que teve menor repercussão.

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Faixas:

1.      Vai levando ( Caetano Veloso, Chico Buarque)

2.      Tiro cruzado (Márcio Borges, Nelson Ângelo)

3.      Comigo é assim (José Menezes, Luiz Bittencourt)

4.      Na batucada da vida (Ary Barroso, Luiz Peixoto)

5.      Sei lá (A vida tem sempre razão) (Toquinho, Vinícius de Moraes)

6.      Olhos nos olhos (Chico Buarque)

7.      Pela luz dos olhos teus (Vinicius de Moraes)

8.      Samba do avião (Tom Jobim)

9.      Saia do caminho (Evaldo Ruy, Custódio Mesquita)

10.  Maninha (Chico Buarque)

11.  Choro de nada (Eduardo Souto Neto, Geraldo Carneiro)

12.  É preciso dizer adeus (Tom Jobim, Vinicius de Moraes)




JOÃO DO VALE (1981)

 


“Opinião” foi um célebre espetáculo teatral e musical que estreou no RJ em 1964 e promoveu um improvável encontro de artistas: Nara Leão, branca, classe média carioca, com boa formação, bossa-novista, simbolizando a universitária engajada; João do Vale, negro, pobre, nordestino, semi-analfabeto, cantor de baião representando o retirante. Completando o trio, Zé Keti, também negro e pobre, personificando o sambista malandro do morro, igualmente excluído. Três músicos de distintos perfis unidos num manifesto de resistência contra o regime militar recém empossado. Duas canções do show (que se tornou também um LP de sucesso) destacaram-se: a música tema “Opinião” (“podem me bater, podem me prender...”) de Zé Keti e “Carcará” (“pega, mata e come”) de João do Vale.

 “Carcará” tornou-se um hino de protesto, embora originalmente nem tivesse esse propósito. Na conjuntura, a ave de rapina do título passou a encarnar a ditadura repressiva. A canção foi recheada de estatísticas sobre o êxodo de nordestinos e bombou com a interpretação lancinante de Maria Bethânia (que substituiu Nara no segundo ano do espetáculo). Foi o primeiro hit da cantora baiana puxando as vendas de seu LP de estreia.

Na esteira do sucesso alcançado, João lançou aquele que viria a ser seu único disco solo: O POETA DO POVO (1965) pela Philips (jamais editado em CD), contendo “Carcará” e mais onze faixas de sua autoria, quase todas em parceria. Um dos mais assíduos parceiros, Luiz Vieira, em depoimento para o documentário “Muita Gente Desconhece”, afirma que João necessitava sempre de um colaborador para dilapidar a pedra preciosa bruta que intuitiva e desordenadamente compunha, para que lhe fosse dado um formato bem acabado.

Apesar de o disco solo não ter repetido o sucesso de OPINIÃO, várias composições de João emplacaram na voz de outros intérpretes, vindo a se tornar clássicos do cancioneiro popular. As mais famosas: “Canto da Ema” (com Gil), “Coroné Antônio Bento” (com Tim Maia) e “Na Asa do Vento” (com Caetano).

Essas três gravações antológicas mais “Carcará” com Bethânia foram reunidas num único disco, um fascículo da série NOVA HISTÓRIA DA MÚSICA BRASILEIRA lançado pela Abril Cultural em 1970 comercializada exclusivamente em bancas de jornal, tendo alcançado expressivas vendas. Cabe assinalar que essa coleção da Abril talvez tenha sido a maior e mais completa compilação que se tem notícia na história da nossa música. Foi resultado de um acordo com as principais gravadoras, tendo sido convocados como colaboradores os mais renomados críticos musicais da época, os quais selecionavam o repertório e escreviam os textos que acompanhavam os discos.

Os fascículos dedicados a João do Vale (duas edições já que a série teve um repeteco dez anos após) ganharam especial projeção em decorrência das peculiaridades que cercaram a trajetória do artista. Costumam ser citados como parte de sua discografia em função da ausência de outros registros fonográficos desse genial compositor.

Decorridos 16 anos de seu disco solo, João voltou aos estúdios por iniciativa de Chico Buarque, um grande admirador. Na pauta, o lançamento de um álbum que fizesse jus à grandeza do músico maranhense. O disco chamou-se apenas JOÃO DO VALE, saindo pela CBS (1981). Na retaguarda, uma série de acompanhantes pra ‘cabra’ nenhum botar defeito. Além do próprio Chico, compareceram Tom Jobim, Fagner, Gonzaguinha, Alceu Valença, Zé Ramalho, Jackson do Pandeiro, Nara Leão, Clara Nunes e Amelinha, cada um acompanhando o músico numa faixa. Treze ao total, sendo dez em duetos e três desacompanhadas. Dentre elas, a belíssima “Minha História”, melancólico baião autobiográfico que anos mais tarde seria regravada por Chico Buarque (não confundir com a homônima versão de uma canção italiana de Lucio Dalla gravada por Chico em 1971). A interpretação de João acompanhado apenas de um violino ao fundo é de arrepiar.

 Ao contrário dos fascículos da Abril que compilaram gravações de épocas distintas, numa colcha de retalhos, este empreendimento envolvendo tantos artistas de renome foi  especialmente concebido como parte de um projeto específico.

João do Vale teve ainda um último tributo, também produzido por Chico Buarque, um álbum lançado exclusivamente em CD, JOÃO BATISTA DO VALE (1994) com a presença de outra penca de nomes da primeira linha da MPB, só que nesse caso sem a presença do homenageado que se encontrava adoentado, com renda a ele revertida.

Ainda que com o peso dos convidados, as vendas desses dois discos estiveram aquém do esperado. Talvez a figura de João tivesse sido estigmatizada pelos ares do protesto que se esvaíram com o tempo. Ainda que essencialmente revolucionária, a arte de João não teve o cunho político que dela fizeram uso.  Além disso, talvez o público já se identificasse com as consagradas versões, tornando repetitivas novas edições.

Em 1996, João morreu quase tão pobre quanto nasceu. Desfecho presumível para a triste trajetória narrada em “Minha História”. Reverenciado por artistas, críticos e intelectuais mas sem jamais ter angariado a mesma atenção do grande público a quem sua arte era dirigida e cujas angústias e dramas sua música tão bem retratava.

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Faixas:

01 - Na Asa do Vento (Luis Vieira - João do Vale)

02 - Pé do Lajeiro (Aonde a Onça Mora) (João do Vale - José Cândido) (Com Tom Jobim)

03 - Estrela Miúda (Luis Vieira - João do Vale) (Com Amelinha)

04 - Bom Vaqueiro (João do Vale - Luis Guimarães) (Com Fagner)

05 - O Canto da Ema (Alventino Cavalcanti - Aires Viana - João do Vale) (Com Jackson do Pandeiro)

06 - Carcará (João do Vale - José Cândido) (Com Chico Buarque)

07 - Morceguinho (O Rei da Natureza) (José Cândido - João do Vale) (Com Zé Ramalho)

08 - Morena do Grotão (João do Vale - José Cândido)

09 - Oricuri (Segredo do Sertanejo) (João do Vale - José Cândido) (Com Clara Nunes)

10 - Fogo no Paraná (João do Vale - Helena Gonzaga) (Com Gonzaguinha)

11 - Pipira (João do Vale - José Batista) (Com Nara Leão)

12 - Pisa na Fulô (João do Vale - Ernesto Pires - Silveira Júnior) (Com Alceu Valença)

13 - Minha História (João do Vale - Raimundo Evangelista)




FERNANDO FALCÃO - MEMÓRIA DAS ÁGUAS (1981)

 


Quem conhece esse nome? Na Wikipedia, a única alusão a Fernando Falcão era a de um insignificante município encravado no sertão maranhense (lacuna corrigida apenas recentemente). Mesmo no mundo artístico, são poucos os que ouviram falar desse compositor, poeta e economista, egresso do movimento estudantil, falecido em 2002, que escolheu a percussão como forma precípua de expressividade. Mais provável achar referências em sites internacionais especializados em música.

Dele pode ser garimpada uma tocante composição em parceria com Fausto Nilo, “Marinheira”, fechando o disco ROMANCE POPULAR de Nara Leão.  

Sua obra é de fato enxuta. Apenas 3 álbuns: MEMÓRIA DAS ÁGUAS de 1981, BARRACAS BARROCAS de 1987 que traz parcerias com Alceu Valença e Lelo Nazário, participação de Tetê Espíndola mais um time respeitável de instrumentistas (Daniel Taubkin, Teco Cardoso, Rodolfo Stroeter, Jorge Degas, Toninho Carrasqueira). E ENGENHO DOS MENINOS, (dividido com Zé da Flauta) com a participação de Fagner e Dominguinhos. Esse último, lançamento póstumo de 2003, foi o único convertido em CD para o mercado nacional.

MEMÓRIA DAS ÁGUAS, gravado em 1979 em Paris, onde FF se exilara por razões políticas, foi (pode apostar!) lançado no Brasil dois anos após. Embora esse seja o único registro que não traz o aporte de artistas renomados (apenas uma trupe de competentes mas pouco conhecidos músicos franceses e brasileiros, incluindo a atriz Valerie King com quem se casou), é não apenas seu trabalho mais expressivo como, seguramente,  uma das mais brilhantes obras da música instrumental nacional.

A capa discreta (um pequeno peixe estilizado sobre um fundo preto) e a criação independente afrontam a exuberância e o esmero da produção. São oito ricas peças de puro deleite em que o músico funde com primor sonoridades regionais do Nordeste e polirritmia africana (conferir “Curimão” que reúne sons onomatopaicos e do folclore da Guiné e “Mercado” que traz como fundo o burburinho do mercado de Tanger, Marrocos) com música erudita contemporânea e jazz, obtendo um resultado hipnótico. Impossível não se sensibilizar com o lancinante violino dialogando com o frêmito de pássaros selvagens em “Revoada”, talvez o ponto alto do disco.

O fato de se tratar de um trabalho que teve distribuição restrita tornou esse LP uma genuína raridade. Uma pérola que permanecerá para sempre desconhecida em águas profundas, sem memórias.

PS: MEMÓRIA DAS ÁGUAS e BARRACAS BARROCAS foram reeditadas em 2019 no mercado internacional pelo selo Selva Discos

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Faixas:

1. Memória Das Águas 5:01

2. Amanhecer Tabajara (A Alceu Valença) 3:55

3. Ladeira Dos Inocentes 5:02

4. Revoada 5:16

5. Mercado (Gravado No Mercado Tanger) 3:14

6. Curimão (Sons Onomatopaicos E Folk Da Guiné) 6:45

7. Solito (Solo De Balauê) 4:19

8. Danado Cantador (Balauê, Orquestra E Declamação) (A Fagner) 4:47         

(todas as faixas compostas por Fernando Falcão)



7 de dez. de 2020

BETH CARVALHO – CANTO POR UM NOVO DIA (1973)

 


Beth Carvalho viveu seus tempos de maior popularidade entre 1976 a 1988. Nesses 13 anos, a cantora carioca lançou 13 discos, um por ano, pelo selo RCA Victor. “Vou Festejar”, “Coisinha do Pai”, “Saco de Feijão”, “As Rosas não Falam” são alguns dos sambas dessa fase que caíram no gosto do público.

Nos primórdios de sua carreira, todavia, não parecia haver indicação de que Beth estivesse destinada ao samba. Seu primeiro registro musical data de 1965: o compacto simples “Por Quem Morreu de Amor”, composição de Menescal e Bôscoli, produzido por Eumir Deodato, nomes vinculados à bossa nova.

Ao lado de Eduardo Conde (que ficou famoso como ator principal da peça Jesus Cristo Superstar), teve uma rápida passagem como vocalista do conjunto 3D de Antonio Adolfo (com a presença também de Chico Batera e Hélio Belmiro). Gravaram um obscuro LP, MUITO NA ONDA (1966), com um repertório de jazz e bossa nova. Curiosamente, esse disco, dificílimo de achar no Brasil, pode ser encontrado em CD no... Japão (e ainda com faixas bônus!). Os nipônicos nutrem verdadeira veneração por Beth Carvalho que sequer pisou naquele país.

O passo seguinte da vida artística da cantora tampouco revela o caminho que viria a trilhar: interpretou a festivalesca “Andança” (Edmundo Souto, Paulinho Tapajós, Danilo Caymmi), que cravou um honroso 3º lugar no FIC/68. À sua frente, duas concorrentes imbatíveis: “Sabiá” (Tom e Chico) e “Prá não Dizer que não Falei das Flores” (Vandré). “Andança” fez bonito e tornou-se emblemática na carreira da intérprete. Aproveitando a maré, lançou o primeiro disco solo, ANDANÇA (1969, Odeon), puxado pela canção-título, secundada nesta e em mais 3 faixas pelos jovem-guardistas Golden Boys, inclusive numa expressiva leitura de “Sentinela” de Milton Nascimento com a participação do mesmo ao violão. No repertório, prevalecia bossa e MPB.

Alguns registros dessa fase pré-samba podem ser conferidos em dois dos cinco volumes do box PRIMEIRAS ANDANÇAS, lançado em 2010 que revela as primeiras gravações da artista mangueirense, parte das quais havia sido lançada apenas em singles avulsos.

Sua conversão definitiva ao samba ocorreu por motivos, digamos, ideológicos. “A Bossa Nova foi um movimento lindíssimo da Zona Sul, Arpoador, Ipanema, Leblon, Copacabana e que merece ser cantado (...). Mas o Brasil pegando fogo, em plena ditadura e os caras falando do barquinho, do pato, da brisa. Cantar samba feito por compositores negros, pobres e marginalizados é uma forma de protesto”, afirmou, plena do brio ativista herdado das rodas do Cacique de Ramos.

CANTO POR UM NOVO DIA foi seu primeiro disco genuinamente de samba. Ainda que por uma pequena gravadora nacional, Tapecar, a produção foi esmerada bem como o repertório.

O grande destaque foi “Folhas Secas”, belíssima composição de seu patrono Nélson Cavaquinho (que comparece tocando violão) e Guilherme Brito. Consta que Elis Regina, através da indiscrição de César Camargo Mariano (marido de Elis e produtor do disco de Beth), tomou conhecimento da canção feita de encomenda (carro-chefe do álbum) e a incluiu, sem consentimento da sambista, em seu LP de 1973 pela Phonogram. A disputa pela primazia do lançamento provocou uma guerra das gravadoras, que respingou na relação entre as duas cantoras que nunca mais voltaram a se falar.

Outras pérolas do álbum são “Hora de Chorar” (Mano Décio e Jorginho Pessanha),“Velhice da Porta-Bandeira” (Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro) e “Mariana da Gente” (João Nogueira). Presentes ainda, dentre outras, composições de Martinho da Vila e Mário Lago.

O séquito de acompanhantes é de primeira. No violão, além de Nelson Cavaquinho, Luiz Cláudio Ramos e Dino Sete Cordas; no cavaquinho, Zé Menezes; no baixo, Luizão Maia; na percussão, Chico Batêra, Mestre Marçal, Jorginho do Pandeiro e Bezerra da Silva; na bateria, Paulinho Braga; e no piano, César Camargo Mariano, também arranjador.

Beth viria a gravar mais dois grandes trabalhos pela Tapecar: PRA SEU GOVERNO (1974), produzido por Paulo Moura, contendo seu primeiro sucesso radiofônico: “1800 Colinas” (Gracia do Salgueiro), além de “Maior é Deus” (Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro); e PANDEIRO E VIOLA (1975) com “Onde Está a Honestidade” (Noel Rosa). Essa trinca de álbuns, anteriores à sua fase mais conhecida, consolidaram-na como estrela maior do samba.

Com esses trabalhos, Beth conquistou apoio unânime da crítica especializada (Zuza Homem de Mello, Rildo Hora, Tárik de Souza e Sérgio Cabral, pai, eram alguns de seus deslumbrados fãs), embora o sucesso popular ainda estivesse por vir.

A ‘Madrinha do Samba’ ficou marcada também pelos artistas que ‘amadrinhou’ como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Fundo de Quintal e por aqueles que divulgou e resgatou como Nelson Cavaquinho e Cartola que tinham em Beth sua intérprete preferida.

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Faixas:

1. “Hora de chorar” (Mano Décio e Jorge Pessanha) 3:41

2. “Canto por um novo dia” (Garoto da Portela) 2:10

3. “Se é pecado sambar” (Manuel Santana)  4:19

4. “Homenagem a Nelson Cavaquinho” (Carlos Elias) 3:08

5. “Evocação nº1” (Nelson Ferreira) 2:42

6. “Velhice da Porta Bandeira” (Eduardo Gudin / Paulo Cesar Pinheiro) 3:25

7. “Folha Secas” (Nelson Cavaquinho / Guilherme de Brito) 2:15

8. “Salve a preguiça meu pai” (Mario Lago) 2:07

9. “Mariana da gente” (João Nogueira) 3:52

10. “Fim de reinado” (Martinho da Vila) 2:16

11. “Clementina de Jesus” (Gisa Nogueira) 1:59

12. “Memória de um compositor” (Darcy da Mangueira / Betinho) 4:02

13. “Flor de Laranjeira / Sereia / São Jorge Meu Protetor”  (Medley) (Bernadino Silva, Beth Carvalho, Jorge Silva , Nelson Cavaquinho, Noel Silva, Umberto De Carvalho, Zé Pretinho) 3:05


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